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A democracia vai voltar com força

Por Gustavo Conde

Eu sei que parece estranho. Mas eu continuo lendo os sites dos grandes jornais brasileiros para acompanhar como a matriz do sentido político que opera nos bastidores vai se reorganizando.

Não faço o gênero “não leio mais; Folha não entra em casa, Estadão é lixo etc”.

Eu leio para criticar ou, se for o caso, até elogiar.

O mundo do discurso está em forte aceleração. Bolsonaro se coloca como inimigo da imprensa e uma certa esquerda também. É preciso tomar cuidado, porque a linguagem é ingrata e reorganiza o cenário ideológico à revelia de seus usuários.

De uma certa maneira, essa repulsa à imprensa une bolsonaristas e esquerdistas.

É hora de tomar cuidado e de sermos inteligentes.

A mágoa, o trauma e o despeito são sentimentos improdutivos neste momento.

Lula está falando com evangélicos. Partidos de colorações historicamente opostas estão se aliando (PDT e DEM). O governo rasga a fantasia de nazista e muita gente ainda hesita em aceitar essa realidade.

2020 vai ser um ano cascudo, talvez mais “longo” e complexo que 2019. Mas é o ano do desenlace. Nós precisamos produzir esse desenlace para que seja possível sair dessa imensa armadilha e continuarmos “escravizados” pela pauta regressiva do bolsonarismo.

Ninguém aguenta mais isso, nem a elite brasileira. Está tudo muito feio, muito difícil e muito vergonhoso.

O apoio que Bolsonaro tem é apenas dos antipetistas intelectualmente fragilizados e fortemente influenciáveis como Fábio Porchat, Luciano Hang, Regina Duarte e congêneres.

Esse é um dos corolários do mundo dos sentidos e do discurso: se se está contra o PT (neste momento, no Brasil) está-se a favor de Bolsonaro. É uma regra do discurso, não há como lutar contra ela.

O caso de Fábio Porchat é pedagógico: alardear o antipetismo é se alinhar automaticamente a Bolsonaro. Não sou quem diz isso, é a opinião pública, a conjuntura político-partidária, o Twitter, a conversa na fila do emprego.

Esse fenômeno é tecnicamente chamado nos estudos da linguagem de “realidade do discurso”.

Claro que você pode não aceitá-la, mas o resultado prático de sua posição será esse: você apenas não aceita uma realidade imposta pela organização dos sentidos políticos de turno. Vai ficar à deriva até sua posição conquistar densidade suficiente para se impor como “realidade discursiva”, o que pode levar dez, cem ou mil anos.

Resistir à realidade, aliás, é o ofício de muita gente no Brasil, não só à realidade discursiva, mas à realidade factual (como a esfericidade da Terra).

O cenário para o PT, Lula e a democracia, portanto, é espetacular. Os maiores inimigos do êxito previsível subscrito nessa constatação do mundo do discurso somos nós mesmos, com a nossa intolerância estrutural (compreensível, mas limitadora).

Ou seja: está tudo em nossas mãos, é só querer.

O ano de 2020 começou muito acelerado, com situações-limite. Trump atacou o Irã e Petra Costa foi indicada ao Oscar. O secretário de Cultura teve um surto nazista e outro secretário (de Comunicação) está atolado em práticas de corrupção.

Tudo, absolutamente tudo, nos é favorável. Os céticos de plantão (eles servem para isso: para serem céticos de plantão) irão dizer que não, que Bolsonaro está forte, que a elite brasileira é sanguinária e “que” eles vão ganhar as eleições em todas as cidades do país.

É chique ser cético. É o antídoto para parecer inteligente sem sê-lo de fato. Não falha.

Mas a realidade factual, política e discursiva é bem outra. E ela está trepidando diante de nossos olhos todos os dias.

Outro recado importante: acompanhar tudo isso através daquilo que nos é oferecido pelas mídias convencionais ou não é passo obrigatório na caminhada rumo à redemocratização do país.

Mas conversar com as pessoas nas ruas é ainda mais importante.

Muita gente faz aquela pergunta boba e batida: “por que as pessoas não saem às ruas para protestar?” e permanece em casa ou no trabalho reclamando da vida.

Ora, cara pálida! Saia você na rua!

Saia e converse com as pessoas. Com o povo trabalhador, com o garçom, com a atendente da livraria, com o caixa de supermercado, com o cobrador de ônibus, com o motorista de Uber, com o entregador da iFood.

Converse. É a melhor fonte de informação do país e da realidade que pode existir. Não há nada que supere uma conversa real com uma pessoa real vivenciando os problemas reais diante de uma monumental crise econômica real.

Quem tem medo de conversar?

A esquerda é valente. É o ponto fora da curva de um país que deveria – devido a certas pressões históricas – ter sido majoritariamente conservador. Não é. Bolsonaro é um soluço histórico.

Lula é a realidade.

O PT e Lula não brincam em serviço. Nunca brincaram. Eles vão vencer de novo e a explicação para isso é simples: eles constroem a vitória com paciência, espírito democrático e inteligência.

A mais nova prova dessa inteligência e dessa profunda conexão com a realidade é a volta do slogan “Lula Livre”.

Lula está solto, não livre. Esse é o raciocínio dotado da inteligência desproporcional de Lula. O mote Lula Livre é poderoso e está impregnado das emocionalidades da Vigília, da prisão política e da ansiedade por democracia que todo povo trabalhador experimenta nesse momento.

É preciso catalisar essa energia social e usá-la em nosso favor.

O sofrimento auto consentido de setores da esquerda neste momento é pura munição para os derrotados de sempre que querem mais vez vencer no grito e no golpe.

Nós precisamos romper com esse vício de nos fingirmos de derrotados. Não somos nós os derrotados, são eles. Nós somos os mais vitoriosos trabalhadores deste país e viramos um jogo histórico numa saga democrática sem precedentes de muita luta e muita fibra, inspirados pela maior liderança política de todos os tempos que é Lula.

Como diz a nossa guerreira de primeira ordem, Dilma Rousseff: não ficará pedra sobre pedra.

E quando esses escombros do golpe forem se avolumando nas derrotas eleitorais subsequentes dos artífices do horror, nós construiremos o país mais uma vez, sobre bases mais sólidas e estruturas mais amplas.

É preciso devolver a humanidade à nossa própria possibilidade de futuro.

Gustavo Conde é mestre em linguística pela Universidade Estadual de Campinas. Trabalha com teorias do humor e com a história da representação do riso. As áreas do conhecimento que caracterizam sua pesquisa são: análise do discurso, psicanálise e semiótica.

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