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A diabólica parceria entre a Globo e o juiz do Paraná

Por Ângela Carrato, Eliara Santana e Luiz Carlos Azenha* [1]

Jornalistas, professores e doutores denunciam a parceria diabólica entre a Globo e o juiz Sérgio Moro para acabar com a imagem de Lula e apoiar a Lava Jato. O texto de hoje foi escrito por Ângela Carrato, Eliara Santana e Luiz Carlos Azenha, e é mais um dos artigos do livro “Relações Obscenas”.

“Relações Obscenas” é uma realização do Instituto Declatra e do grupo LEME, com apoio do Instituto Joaquín Herrera Flores e lançado pela editora Tirant Lo Blanch.

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Numa segunda-feira, em 29 de julho de 2019, um comentarista do Grupo Globo foi chamado a opinar sobre como seria a semana política no Brasil na rede CBN de rádio, que tem quatro emissoras próprias e outras 34 afiliadas no país.

Para os moradores das grandes metrópoles, as emissoras de rádio são grandes “companheiras de trânsito”, ou seja, quando muito permanecem ligadas nos trajetos feitos de automóvel. Não é assim no interior, onde o rádio reproduz as opiniões vindas de fora, supostamente de pessoas melhor informadas, vozes que vêm do poder associado a São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília.

No rádio, a CBN equivale à TV Globo em termos de alcance nacional. 

“Os vazamentos que poderiam incriminar o ex-juiz, naquele momento ministro da Justiça, e o chefe da Operação Lava Jato em Curitiba são, portanto, reduzidos a uma disputa política. São ignorados e, portanto, tirados da pauta”

O comentarista não é unilateral em sua análise. Ele dá os pontos de vista do governo e da oposição sobre a prisão de hackers acusados de violar a privacidade de autoridades brasileiras, bem como sobre a possível repercussão política do vazamento de mensagens envolvendo o então juiz federal Sergio Moro e procuradores da República da Força-Tarefa da Lava Jato em Curitiba. O comentário dura sete minutos e sete segundos. A manchete dada à fala do comentarista é: “PF não descarta possibilidade de ter algum grupo por trás dos hackers”.

O detalhe que chamou a atenção no comentário é que, em nenhum momento, o jornalista faz qualquer referência ao conteúdo das mensagens sobre as quais, previu, pode ser que ainda “haja uma queda de braço sobre o tema entre oposição e governo no Congresso Nacional”.

Os vazamentos que poderiam incriminar o ex-juiz, naquele momento ministro da Justiça, e o chefe da Operação Lava Jato em Curitiba são, portanto, reduzidos a uma disputa política. São ignorados e, portanto, tirados da pauta.

O comentarista a que nos referimos trabalha em Brasília, o centro nevrálgico da opinião dos donos de emissoras de rádio e TV brasileiras. É lá que lobistas, em nome dos proprietários da mídia, atuam junto ao governo federal em busca de favores, verbas publicitárias e acertos de bastidores sobre decisões que os afetam.

O mesmo comentarista emite opiniões na GloboNews, a emissora a cabo que é a principal formadora de opinião da elite brasileira. Além disso, tem um blog no portal G1.

O Grupo Globo, por sua penetração em todas as mídias e em todo o Brasil, continua o grande “formulador” da agenda jornalística do país – para não dizer política, econômica e cultural.

Atribui-se ao fundador Roberto Marinho o discurso de que o Jornal Nacional, principal telejornal brasileiro, é importante não por aquilo que noticia, mas pelo que deixa de noticiar.

O exemplo acima não contempla a complexidade da maior rede de comunicação do país, na qual existem muitas vozes. Mas é sintomático do tratamento que a Globo – acompanhada pelo que chamamos de suas “emissoras satélites”, de menor alcance, mas tão ou mais dependentes quanto ela do poder – deu aos vazamentos atribuídos a um hacker confesso. 

Trata-se de um caso policial, não político, diria o anedótico marciano se desembarcasse no Brasil naquele momento, depois de assistir aos telejornais.

Coincidentemente, no mesmo dia em que o comentarista da CBN emitiu sua opinião de mais de sete minutos sem tocar no conteúdo dos vazamentos, a manchete da Folha de S. Paulo foi: “Moro julgava fraca delação de Palocci, indica mensagem”.

A reportagem, baseada nos vazamentos do Intercept Brasil, trata da manobra do então juiz federal Sérgio Moro para publicizar a delação não homologada do ex-ministro Antonio Palocci no dia primeiro de outubro de 2018, faltando alguns dias para o primeiro turno das eleições.

“PT gastou R$ 1,4 bilhão para eleger e reeleger Dilma”, diz Palocci em delação, noticiou às 15h22m daquele dia o jornal O Globo.

O ex-ministro fez outras afirmações gravíssimas. Segundo ele, “das mil medidas provisórias editadas nos quatro governos do PT, em pelo menos novecentas houve tradução de emendas exóticas em propina”.

As mensagens divulgadas pela Folha sugerem que o então juiz Moro agiu com o objetivo de influenciar o resultado do primeiro turno.  Àquela altura da campanha, as curvas das pesquisas apontavam tendência de alta tanto para Jair Bolsonaro quanto para Fernando Haddad, o candidato do PT que dependia da transferência de votos de Lula para passar ao segundo turno. Haddad nunca alcançou os mesmos índices de Lula, quando o ex-presidente ainda era candidato ao Planalto.

No dia do vazamento parcial da delação de Palocci, a defesa do ex-presidente Lula respondeu que o ex-ministro “mentiu mais uma vez, sem apresentar nenhuma prova em relação a Lula, para obter generosos benefícios que vão da redução substancial de sua pena – 2/3 com a possibilidade de ‘perdão judicial’ – e da manutenção de parte substancial dos valores encontrados em suas contas bancárias”. Porém, isso seria apenas uma nota na reportagem do Jornal Nacional daquela noite, que dedicou 8 minutos e 41 segundos ao assunto.

A chamada da reportagem do JN foi arrasadora do ponto de vista da campanha de Fernando Haddad: “O ex-ministro Antonio Palocci disse em delação à Polícia Federal que Lula sabia da corrupção na Petrobras e que o então presidente encomendou a construção de sondas para garantir com recursos ilícitos o futuro político do Partido dos Trabalhadores e a eleição de Dilma Rousseff”.

JN não esclareceu as circunstâncias em que a delação foi acrescentada por Moro a um processo contra Lula mesmo sem ter sido homologada, o que depende da apresentação de provas – ou ao menos indícios de que o delator não está fantasiando para obter vantagens.

O JN não contextualizou o depoimento de Palocci, assim como não contextualizaria os vazamentos que atingiriam Moro e Deltan Dallagnol.

O Grupo Globo e a Lava Jato jogavam juntos.

Depois dos vazamentos do Intercept Brasil, o Grupo Globo e a Lava Jato, com Moro agora no Ministério da Justiça, continuariam jogando juntos.

Apesar de críticas pontuais ao governo Bolsonaro, os irmãos Marinho permaneceram fiéis a Moro e à Lava Jato. Seria um caso de blindagem recíproca? É uma possibilidade, já que o Grupo Globo deu uma pirueta jornalística ao assumir tom moralista em relação a vazamentos.

Como notou o próprio Glenn Greenwald, cofundador do Intercept, a TV Globo, o jornal O Globo e a revista Época já foram parceiros dele na divulgação de segredos ‘roubados’ por Edward Snowden – ganharam prêmios juntos por isso. O fato de que os donos do maior grupo de comunicação do Brasil mudaram de posição em relação a vazamentos é indício de que a parceria entre a Globo e Moro foi além da busca por verbas publicitárias federais.

JN e Lava Jato: parceria para silenciar Lula e vender o Brasil

O tema corrupção, tomado como a grande bandeira da Operação Lava Jato, foi também construído como o principal repertório do Jornal Nacional na narrativa de legitimação ao golpe de 2016, travestido de impeachment, contra Dilma Rousseff e ao silenciamento do ex-presidente Lula.

O suposto combate à corrupção foi igualmente o mote inspirador sob o qual se formou e se firmou a parceria entre o maior telejornal da maior rede de TV do Brasil e a força-tarefa da Lava Jato. Operação que, na prática, destruiu o setor produtivo do país e comprometeu fortemente os rumos da política nacional.

 A análise das edições diárias do JN revela que, sem o apoio dessa parceria, a Operação Lava Jato não alcançaria o sucesso que alcançou no imaginário da população brasileira, sobretudo da classe média.

As fases deflagradas pela força-tarefa eram espetacularmente encenadas e mostradas pelo JN, com enquadramentos precisos, vozes específicas de autoridade (prioritariamente os ministros Carlos Alberto Barroso, Edson Fachin e Luiz Fux) e o repertório a justificar todos os seus atos. Por isso, a Lava Jato e seus procuradores sempre trataram com muito apreço o parceiro, “divulgando” antecipadamente os detalhes das ações.

A publicação das mensagens pelo site The Intercept, comandado pelo jornalista Glenn Greenwald, a partir de 9 de junho de 2019, deixaria isso evidente, mostrando ainda que a parceria atuou com um propósito que ia muito além do combate à corrupção.

A parceria, na verdade, atuou fortemente para calar, simbólica e efetivamente, o ex-presidente Lula e possibilitar a entrega de empresas estatais e recursos brasileiros ao capital internacional.

À medida que novos vazamentos eram divulgados, tornava-se mais evidente que a Lava Jato, sem essa preciosa parceria, não teria o alcance que teve no imaginário coletivo de um país que se tornou refém de uma ideia fixa chamada corrupção (cuidadosamente construída como repertório).

Sobretudo, ficou também cada vez mais claro que todas as ações se pautavam, na verdade, pela perseguição a Lula e ao seu legado de um Estado de bem-estar social.

Parceria obviamente não explicitada e construída no sentido de consolidar uma narrativa e organizar a agenda do debate público de forma enviesada e com um timing perfeito para favorecer determinados atores e cenários.

Jornal Nacional é historicamente, sobretudo a partir do primeiro mandato de Dilma Rousseff, o suporte de um sistema de propaganda que, ideologicamente, ressignificou acontecimentos e operou a partir de um viés tendencioso para consolidar um determinado projeto político e econômico.

Esse sistema, como estratégia de comunicação, levou a cabo a construção simbólica de uma ideia de justiçamento no combate à corrupção.

Ideia que ocupou o lugar de uma justiça institucionalizada e manteve-se como um campo de ação social de organização globalizante das relações de poder e das relações de força.

Nesse sistema, a informação funcionou apenas como um dispositivo discursivo que confere poder a quem o domina. O produto dessa parceria foi exatamente a informação enviesada, reconstruída e calcada no espetáculo.

Os “heróis” para salvar o Brasil

Segundo a filósofa Hannah Arendt, os líderes num sistema totalitário a que serve a propaganda são formatados sob o viés da infalibilidade e de uma condução moral ilibada.

No contexto sociopolítico atual do Brasil, vimos vir à tona figuras que assumiram estatura proeminente em razão de um suposto prestígio social das entidades às quais estão vinculadas. Seus representantes se transformaram em paladinos da retidão e da moralidade em relação a todas as formas de desvios, de malfeitos e de corrupção.

E assim se consolidaram, midiaticamente, as figuras heroicas do então juiz de primeira instância, Sergio Moro, e do procurador e chefe da Operação Laja Jato em Curitiba, Deltan Dallagnol. Foram esses novos heróis as vozes simbólicas de autoridade que passaram a falar pela justiça, que iam livrar o país da “grande corrupção do PT”.

A cada edição do JN, essa imagem se reforçava. A cada operação ou vazamento as vozes de autoridade legitimavam as ações ali encenadas e o espetáculo. Mesmo em ações – muitas – que beiravam a ilegalidade, como a condução coercitiva de alguém que nunca se recusou a prestar depoimento.

Assim a parceria JN (Globo)-Lava Jato se consolidava a cada dia. De um lado, a garantia de vazamentos e detalhes de operações e delações em primeira mão; do outro, a garantia de que tudo se tornaria um grande espetáculo na edição da noite.

Essa atuação, conjunta e em sintonia, foi essencial para garantir a fabricação do consenso, estratégia que permite o exercício de poder e da dominação sem que haja coerção ou uso de força – como bem explicou o linguista Noam Chomsky em “Manufacturing Consent”.

Consolidou-se, portanto, nessa “parceria”, um eficaz modelo de propaganda, na simbologia do herói e do bandido, que vai sustentar a produção desse consenso em torno de um inimigo comum que une os cidadãos de bem.

O modelo determina a configuração das notícias, bem como dos personagens. O discurso dogmático, por vezes messiânico, falseado para mostrar arroubos no compromisso com a liberdade e o combate à corrupção, era sempre levado com destaque à mídia.

Assim construído e tendo encantado a opinião pública, passou a justificar toda série de arbitrariedades e desrespeito à lei (delações, vazamentos, conduções coercitivas sem justificativa).

Momentos essenciais da parceria

A parceria com a Operação Lava Jato na divulgação de vazamentos, delações e ações de prisão se mostra particularmente efetiva em momentos políticos decisivos, com um timing perfeito de acordo com os personagens envolvidos e a intenção do resultado.

O espetáculo revelando a última ação da Operação era sempre levado ao público com um padrão bem detalhado de enquadramento e silenciamento – destacando o tema que interessava e silenciando sobre todas as demais nuances. Dois exemplos ilustram bem.

16 de março de 2016 

Dilma, já enfrentando o processo de impeachment, indica Lula como ministro-chefe da Casa Civil. O então juiz Sergio Moro libera gravações de diálogos do ex-presidente Lula, investigado pela Lava Jato. A GloboNews é a primeira a divulgá-las. Nas gravações, há conversas com a então presidente Dilma Rousseff.

Ao longo da tarde, antes da edição noturna, vários boletins trazem trechos dos diálogos. Na edição da noite, o tema é recortado e tem várias matérias, ao longo da edição, que contemplam ainda os chamados panelaços (3 minutos) e manifestações na porta do Planalto (2 minutos).

Na matéria que menciona a nomeação de Lula, o vazamento e o tom das conversas já predominam: 

Nesta quarta-feira, a crise que envolve o governo Dilma Rousseff atinge o ponto mais alto desde o início. Antes que o Diário Oficial efetivasse a nomeação de Lula como ministro, o juiz Sérgio Moro retirou o sigilo de toda a investigação sobre o ex-presidente, e com isso tornam-se públicas, no fim da tarde, conversas telefônicas de Lula. Os integrantes da Lava Jato afirmam que há indícios de uma operação para atrapalhar as investigações. Ainda nesta edição, o Jornal Nacional vai mostrar o conteúdo desses grampos e as reações que eles provocaram”.

A ideia de um governo em crise, portanto enfraquecido, já se coloca de imediato. E isso será repetido ao longo da edição. Outro ponto argumentativo importante é a ideia de “indícios de operação para atrapalhar a Lava Jato”, trazida pela voz externa de autoridade judicial.

 Na matéria que trata especificamente dos grampos, o começo:

“Nesta quarta-feira, a crise política atingiu o ponto mais alto. O juiz Sergio Moro suspendeu, no fim da tarde, o sigilo da 24a fase da Operação Lava Jato, e com isso, conversas do ex-presidente Lula se tornaram públicas. Integrantes da Operação Lava Jato informaram que há indícios de uma ação para atrapalhar as investigações”.

A encenação da leitura dos conteúdos dos vazamentos dos áudios, lidos e interpretados por William Bonner e Renata Vasconcellos, traz uma forte carga de dramaticidade, com muitos gestos e impostação de voz num tom de indignação.

 Não há nenhuma referência às implicações do vazamento, nomeado como “liberação do sigilo da investigação”, que envolve um ex-presidente da República e a então presidente da República (observem a sequência argumentativa: Moro SUSPENDE SIGILO, por isso as conversas se tornam públicas – não é necessária, portanto, outra explicação).

Além disso, também não se explica o caráter repentino da decisão do juiz Sergio Moro em quebrar a proibição de divulgação dos áudios. O espetáculo da encenação segue durante toda a edição. Os trechos das falas de Lula e Dilma não aparecem como vozes reportadas, mas como falas encenadas pelos locutores. Há até espaço para Bonner, incomodado, destacar que “Lula fala um palavrão”.

Os trechos do diálogo são entremeados por notícias das investigações, que trazem sempre como fonte a Polícia Federal. O conjunto de matérias tem, no total, 19 minutos.

 A edição do Jornal Nacional se divide praticamente entre a nomeação de Lula – com espaço para críticas da oposição e manifestação na rua – e as conversas vazadas.

O telejornal não informou que a gravação específica entre Lula e Dilma foi captada depois do horário em que o próprio juiz Moro determinou a suspensão das escutas telefônicas pela PF.

 Nem que, por questão de foro, o juiz deveria ter encaminhado a gravação ao Supremo Tribunal Federal sem tomar a decisão de divulgá-la.

1º de outubro de 2018 

Às vésperas da eleição presidencial (que ocorreu em 7 de outubro).

Novamente, o então juiz Sergio Moro “libera” trechos da delação do ex-ministro Antônio Palocci.

Abertura da matéria: “O ex-ministro Antonio Palocci diz em delação que o ex-presidente Lula sabia da corrupção na Petrobras e que o então presidente encomendou a construção de sondas para garantir, com recursos ilícitos, o futuro do Partido dos Trabalhadores e a eleição de Dilma Rousseff. Palocci também disse que as campanhas de Dilma de 2010 e 2014 custaram quase três vezes o valor declarado. O PT afirma que o ministro Palocci mente”.

 A imagem de fundo para ilustrar é a clássica cena vermelha com um tubo de esgoto por onde escorre dinheiro.

A imagem é animada e vai se alterando à medida que Bonner fala. Quando ele menciona “recursos ilícitos para o Partido dos Trabalhadores”, há uma enorme quantidade de dinheiro escorrendo pelo tubo de esgoto.

JN blinda Moro e Dallagnol

Como parceria pressupõe reciprocidade, chega a vez de o JN defender os “heróis” do combate à corrupção. Assim, no momento em que o jornalista Glenn Greenwald e o site The Intercept trazem à tona mensagens e conversas comprometedoras entre o procurador Deltan Dallagnol e o então juiz Sergio Moro, o Jornal Nacional aposta na criação de um fato “novo” para consolidar uma narrativa de sustentação à Lava Jato.

E é dessa forma que, partir de 10 de junho, o que interessa ao JN é mostrar que houve uma ação ilegal – doIntercept, que divulgou – e dimensionar uma ação que pretende atingir os procuradores.

 A chamada para a matéria sustenta o mote: “A Polícia Federal suspeita que a invasão a celulares de Moro e procuradores foi uma ação orquestrada”.

Portanto, na encenação da bancada do JN, o acontecimento inicial (divulgação das conversas comprometedoras) deixa de ser um fato relevante para o telejornal, que recria os acontecimentos como convém. Os acusados se tornam, na trama, vítimas de um suposto “hacker”, que quer “comprometer” a Operação Lava Jato. São, portanto, retratados como vítimas de um crime. 

Renata: “A divulgação de mensagens atribuídas a procuradores da força tarefa da Lava Jato e ao então juiz Sérgio Moro provocou diversas reações no mundo jurídico. As manifestações de condenação se dividiram entre o conteúdo das supostas conversas e a condenação à forma ilegal como foram obtidas. Segundo o site Intercept, que publicou as mensagens, elas foram extraídas do aplicativo de mensagens Telegram”.

Bonner: “Na semana passada, o ministro Sérgio Moro já havia denunciado ter sido vítima de um crime. O celular dele foi invadido por meio do aplicativo de mensagens Telegram. O Intercept disse que obteve as informações de fonte anônima antes da invasão do telefone do ministro. Mas o procurador Deltan Dallagnol já havia denunciado ter sido vítima do mesmo crime em abril, quando comunicou o fato à Procuradoria Geral da República”.

Na abertura, a linha argumentativa já insere claramente a dúvida em relação à legalidade do conteúdo divulgado: “Manifestações se dividiram/condenação à forma ilegal”.

Bonner: “O ministro Sérgio Moro está em Manaus, onde participou do Encontro dos Secretários Estaduais de Justiça. Moro disse que os trechos das conversas divulgadas não mostram nenhuma prática ilegal, ressaltou que os procuradores foram vítimas de uma invasão criminosa e que não pode assegurar que as mensagens sejam verdadeiras”.

Na sequência, nova matéria dando destaque a um vídeo produzido por Dallagnol.

 Renata: “O coordenador da Lava Jato em Curitiba, um dos que tiveram o celular invadido ilegalmente, publicou hoje um vídeo numa rede social defendendo a operação”.

Entra Dallagnol falando em um “receio que a ação avance para deturpar fatos e acontecimentos”. O vídeo é todo reproduzido com intervenções de falas curtas de Bonner reforçando algumas ideias.

As vozes externas a conferir autoridade aos fatos são de juízes ou “especialistas” e estão colocadas em dois lados: os que defendem e os que condenam a liberação. A ideia de que houve algo ilegal, sem dúvida, já está posta, marcada para minimizar o peso das denúncias feitas.

No decorrer das semanas e dos novos vazamentos, a parceria não se abalou. Em algumas edições, o JN fez a divulgação das conversas entre juiz e procurador, mas sempre reforçando a ideia da invasão de um hacker, de crime e enaltecendo a importância da Lava Jato no combate à corrupção.

Jornal Nacional silenciou Moro no período de turbulência – aos poucos, ele foi desaparecendo do jornal e do noticiário, e não se falava mais em suas conversas comprometedoras e nos desdobramentos das denúncias feitas pelo The Intercept

Mesmo a licença pedida pelo ex-juiz para “tratar de assuntos pessoais” não foi destaque para o jornal, merecendo apenas uma nota formal de 27 segundos. Nenhum questionamento, portanto. Mas o retorno de Moro à cena torna-se, novamente, a garantia do espetáculo.

Dessa forma, a nova ação da Polícia Federal, sob comando de Moro, deflagrou a Operação Spoofing, para prender os supostos hackers que invadiram celulares de autoridades, garantindo total cobertura do JN que, antes mesmo de qualquer conclusão oficial ligou os suspeitos ao The Intercept.

Há muitos capítulos nessa novela, e o espaço não comporta todos os detalhes da história. Mas o fato é que a estrutura da parceria JN/Globo-Lava Jato é bastante sólida e o trabalho se desenvolve numa sintonia muito efetiva, com resultados expressivos. 

Primeiro, a parceria conseguiu silenciar Lula e justificar sua prisão para que sua voz não convencesse os eleitores.

Depois, ignorou-se o fato de que Sergio Moro se tornou ministro do candidato que venceu porque o candidato condenado por ele estava na cadeia.

Numa nova etapa, silenciou-se sobre o personagem principal, Moro, garantindo sua sobrevida apesar do momento ruim; depois, com seu retorno, o espetáculo foi retomado.

É difícil fazer um prognóstico sobre o futuro dessa parceria, mas o certo é que ela tem se demonstrado, por enquanto, suficientemente sólida para alterar os rumos políticos do país.


[1]* Ângela Carrato é jornalista e professora do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG); Eliara Santana é jornalista, doutoranda em Estudos Linguísticos pela PUC Minas/Capes; Luiz Carlos Azenha é repórter.

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