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A mentira como ética: a manipulação religiosa da mentira com fins políticos

Por Lusmarina Campos Garcia[1]

Este artigo faz parte do livro “Relações Obscenas”, que é uma realização do Instituto Declatra e do grupo LEME, com apoio do Instituto Joaquín Herrera Flores e lançado pela editora Tirant Lo Blanch. Quer o livro da #VazaJato? Clique aqui!

            O processo eleitoral de 2018 tornou-se a arena da produção em massa de notícias falsas e da manipulação da fé transformada em voto. O governo eleito responde a um projeto de poder do fundamentalismo religioso, econômico, judicial e midiático, cuja intenção é fazer avançar um programa teocrático-cristão de sociedade cuja matriz teológica e ideológica se define a partir do capital e do mercado. A parceria de uma parte das igrejas em torno desse tipo de programa não é fenômeno novo, mas as características atuais são diferentes. O projeto de “dominação da sociedade brasileira” através de métodos tais como aqueles descritos por Túlio Gustavo[2], deixa claro que o que se busca alcançar não é só a ascensão ao poder governamental, mas o acúmulo do poder através do ajuste das diversas áreas da sociedade, quais sejam: artes e entretenimento, mídia e comunicação, governo e política, economia e negócios, educação e ciência, família, igreja e religião, a uma perspectiva hermenêutica, teológica, pastoral e eclesiástica que se define a partir de um referencial misógino, LGBT fóbico, racista, antissocial, meritocrático e mercadológico. Ou seja, valores distantes daqueles que compõem o Evangelho.

            À época do período eleitoral vários órgãos de imprensa publicaram artigos apontando para as pesquisas que evidenciavam a participação ativa de líderes e grupos cristãos, principalmente evangélicos, empenhados no processo de produção de fake news[3].

            A religião cristã tem a verdade como um dos seus parâmetros éticos mais relevantes. Como é que um segmento religioso, historicamente pautado por uma ética referenciada pela verdade, torna-se produtor e propagador da mentira?

            Para o teólogo reformado suíço Karl Barth[4] a questão ética está radicada na questão da verdade. O agir humano, que é uma resposta à pergunta: “o que fazer?”, está atrelada à verdade da própria existência dos seres humanos. O problema da ética, diz Barth, “é a pergunta crítica sob a qual a pessoa humana vê colocado o seu agir, isto é, toda a sua existência temporal. Nela se pergunta pelo sentido e pela lei do seu agir, pela verdade em sua existência” (BARTH, 1986:85)[5]. Essa pergunta, prossegue, “responsabiliza a pessoa humana por esses elementos” (BARTH, 1986:85)[6]

            A formulação barthiana é representativa do rigor da ética cristã com respeito ao modo de agir das pessoas. Quando as pessoas se perguntam: “o que devemos fazer?”, tanto a pergunta quanto a resposta compromete-as com uma prática que requer a identificação de sentido e a verdade nas suas próprias existências. Esta é a radicalidade da ética que tem a verdade como seu substrato.

            Por isso, a opção pela produção e propagação de fake news por parte de grupos cristãos é uma ruptura com a estrutura da fé cristã, com a ética dela derivada, com os padrões estabelecidos nas escrituras que são sagradas a esta tradição. É uma inversão principiológica, um ocultamento; o exato oposto da verdade.

            A verdade revela, traz à luz, desamarra. Na linguagem do Evangelho, o conhecimento da verdade, liberta[7].

            Para Heidegger a verdade é revelação, desvelamento, abertura para.  Ele entende que nós somos seres, que ele chama de seres-aí cujo comportamento é um ser-na-verdade (HEIDEGGER, 2008:191)[8], e temos como característica a revelação do ser vivente. A verdade é arrancar os entes, as coisas, do seu ocultamento e revelar o seu ser. Não há simplicidade nesta tarefa, uma vez que vivemos decaídos numa malha de compreensões cotidianas que nos ocultam o ser específico de cada coisa, de modo que homogeneizamos tudo em padrões que se universalizam. No entanto, o processo é manter-se no desvelamento, e conhecer.

            A mentira oculta, dissimula, falseia a realidade, os fatos, e uma vez iniciada, precisa reproduzir-se para justificar-se.

            A produção em massa de notícias falsas do período pré-eleitoral parece ter criado uma cultura de falseamentos que se alastra até hoje por setores da sociedade, por instituições e organizações; parece ter se tornado a “ética” do momento. Os recentes vazamentos referentes à Operação Lava Jato, colocam-nos, mais uma vez, diante da perversa realidade de que os interesses públicos da população brasileira são subtraídos pelas autoridades responsáveis por assegurar-lhes quando agiram de modo que não condiz com o decoro do cargo que exercem. 

             A abundante quantidade de material vazado revela atos gravíssimos de ruptura ética por parte do então juiz Sérgio Moro e da equipe do Ministério Público Federal, através do seu coordenador o Procurador Deltan Dallagnol. A colaboração entre o então juiz e a equipe do Ministério Público deixam ver que os contatos foram mais do que “triviais”, conforme disse Sérgio Moro na Câmara dos Deputados; o juiz e a acusação formaram uma equipe. E em determinados momentos, o juiz a dirigiu.

            Nas audiências ocorridas no Senado Federal e na Câmara dos Deputados, o Ministro Sérgio Moro utilizou de estratégias semelhantes para prestar esclarecimentos

sobre as mensagens trocadas com os procuradores da Operação Lava Jato. Buscou: relacionar as revelações a um ataque à Operação Lava Jato e à batalha contra a corrupção no Brasil, agredir a credibilidade do The Intercept e questionar a autenticidade e licitude das mensagens, que de acordo com sua opinião, resultam de um ataque de hackers a serviço de uma organização criminosa “estruturada”. Na Comissão de Constituição, Cidadania e Justiça, Moro cometeu contradições tais como: 1. Disse que não se lembrava das mensagens, mas que não houve ilegalidade. 2. Questionou a autenticidade das mensagens e se o conteúdo teria sido editado. “Algumas coisas eu posso ter dito. Algumas coisas me causam estranheza”. Prosseguiu: “Me chamou a atenção a atribuição do diálogo feita ao procurador da República, o procurador era denominado de Dallagnol. Depois, [em outras mensagens, estava escrito somente] Deltan. Eles estão editando o material? Moro não pode comprovar que o conteúdo seja original ou não, uma vez que ele afirma não ter mais as mensagens em seu aparelho. Ele afirmou que “se as mensagens que eu eventualmente troquei forem divulgadas sem adulteração, tenho convicção da correção de todos os meus atos como juiz e todas as minhas comunicações com procuradores, advogados, policiais”. 3. Quanto à relação com os procuradores e a imparcialidade do juiz, o Ministro afirma que Moro falou sobre a “normalidade” da suposta troca de mensagens com os procuradores. Aos senadores, o ministro afirmou que era “corriqueiro” conversar com as partes envolvidas em um processo. “Não é incomum que o juiz converse com advogado, com promotor, com policial”. Continua dizendo que “Eventualmente pode ter havido uma troca de mensagens, mas nada que não seja normal”. Na Câmara que a comunicação entre o juiz e as partes “são coisas triviais dentro do cenário jurídico”. Mas, ao ser questionado na CCJ por mais de um senador se teria trocado mensagens também com advogados das defesas, Moro não respondeu. Esquivou-se afirmando não saber a quais advogados os senadores se referiam. “Não sei qual advogado vocês estão falando”.

            A reportagem o El País[9] indica que um dos advogados do ex-presidente Lula, José Roberto Batochio, afirmou, dois dias após a publicação da primeira reportagem, que tentou realizar uma audiência com Moro, mas nunca foi recebido. “Ele [Moro] disse que sempre recebeu advogados e tratou todo mundo de forma igual. Eu mesmo não fui recebido por ele”.

            Os diálogos revelam que a casualidade e a trivialidade que o juiz tenta imprimir às conversas entre ele e o Ministério Público, não são casuais nem triviais. O que se cometeu ali foi uma violação do princípio da independência e equidistância do juiz, condição sine qua non para um juízo justo e o devido processo legal.

            O ministro Sergio Moro e o procurador Deltan Dallagnol, ambos evangélicos, parecem ter incorporado, no todo ou em parte, a cultura de falseamentos que se alastra pelos grupos religiosos que decidiram abdicar da verdade. Parecem navegar nas águas da pós-verdade, que se caracteriza pela impermanência radical dos discursos verdadeiros, porque não têm mais nenhum ponto de apoio e não têm mais a realidade como sendo critério de validação. Então a verdade passa a ser aquilo que se diz, e se alguém desdizê-la, independentemente dos fatos, cria uma interpretação às avessas da anterior e a “nova verdade” vai ser imposta porque não há nenhuma medida nas coisas em geral. O nome antigo da pós-verdade não é mentira?

            Há muito tempo observávamos que a Operação Lava Jato utilizava métodos que agrediam a legalidade, a Constituição Federal, os princípios do devido processo legal. Há muito afirmamos a feição política da Operação que perseguia o objetivo de retirar o presidente Lula da corrida presidencial de 2018. Agora sabemos, pelas provas das conversas vazadas, que a nossa interpretação era acertada. Podemos afirmar a plena voz: o Presidente Lula é um preso político! E não há pós-verdade, nem a mentira transformada em “ética” que impedirá esta verdade de ser revelada, desvelada, aberta para o mundo.

[10] [11]


[1] É teóloga e pastora da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil. É graduada, mestre e presentemente faz o doutorado em direito no Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

[2]https://theintercept.com/2019/01/31/plano-dominacao-evangelico/?fbclid=IwAR2xbdnC6TiLiMfI64fq6S31uCImfROkXYW1mkQ0V3Q6X5stXJ5TT1cjwV0. Acesso em 26/07/2019.

[3] https://www.ultimato.com.br/conteudo/jornalistas-cristaos-etica-pos-verdade-e-fake-news; https://www.cartacapital.com.br/blogs/dialogos-da-fe/mentir-e-pecado-os-cristaos-e-a-propagacao-de-fake-news/; https://www.ultimato.com.br/conteudo/as-fake-news-e-a-igreja; https://www.pragmatismopolitico.com.br/2018/10/estudo-silas-malafaia-rei-das-fake-news.html; https://www.pragmatismopolitico.com.br/2018/10/pastor-denuncia-fake-news-evangelico.html. Acesso em 26/07/2019.

[4] Karl Barth é provavelmente o teólogo mais extraordinário do século XX. Nasceu na Basiléia (Suiça) em 1886 e morreu igualmente na Basiléia em 1968.

5 Evangelho de João capítulo 8, versículo 32.

[5] BARTH, K. Karl Barth: dádiva e louvor, artigos selecionados. São Leopoldo, Editora Sinodal, 1986.

[6] Idem.

[7] Evangelho de João. Capítulo 8. Versículo 32.

[8] HEIDEGGER, M. Introdução à filosofia. São Paulo, Martins Fontes, 2008.

[9] https://brasil.elpais.com/brasil/2019/06/19/politica/1560947872_362859.html. Acesso em 27/07/2019.  

[10] CABRAL, A. Heidegger e a destruição da ética. Rio de Janeiro, Mauad, 2009.

[11] HEIDEGGER, M. I Ser e tempo. Petrópolis, Vozes, 2015.

Inconsequentes - Wilson Ramos Filho (Xixo)
Inimputáveis - Wilson Ramos Filho (Xixo)