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ABRAÇO PESSOAS PRESAS

Por João Marcos Buch

Sempre  que vou às prisões, cumprimento a todos, individual ou coletivamente, desde os trabalhadores do sistema aos recolhidos por ele. Estendo a mão e digo “bom dia”, “boa tarde” ou “boa noite” — já inspecionei cadeias até de madrugada. Com relação à população carcerária, existem algumas regras próprias. Detentos pertencentes a certas facções não estendem a mão e cumprimentam apenas verbalmente. É uma regra que já virou costume e não adentrarei nas suas razões. Ainda assim, todos cumprimentam. Se minha conversa é de janelas superiores para pátios lotados de detentos, ao dizer “bom dia” ouço em coro e uníssono tom um forte “bom dia” como resposta. Quando é face a face, o “bom dia” é automático. O fato é que os cumprimentos sempre acontecem, seja com um aperto de mão, seja com um “bom dia”, seja com um aceno. Agora entro na questão do abraço. Nos protocolos de conduta, o abraço é algo mais íntimo, uma demonstração de afeto no mínimo. Em algumas culturas ele é mais comum e noutras mais raras. Tenho um amigo que sai abraçando a todos que encontra pela frente, ele não economiza abraços, mesmo em tempos de histeria viral. Já eu, sou muito restrito. Essa é uma característica talvez cultural e própria da minha família. Pouco nos abraçamos. Já no meu trabalho, dentre as funções que me cabem, especialmente as de executar penas e fiscalizar as condições do cárcere, o ato de abraçar definitivamente não está contido, mas sou humano, e nessa humanidade ele existe. Então, quando algum detento, por um motivo qualquer, por simples afeto ou em agradecimento por alguma decisão que proferi, como, por exemplo, a autorização de saída para acompanhar o parto de um filho, pede para me abraçar e não existe uma grade entre nós abraço, sem problema algum. Nunca pergunto sobre o crime a que ele foi condenado, sobre seu comportamento na prisão, sobre o que pensarão moralistas de ocasião, eu simplesmente abraço e ponto final. Não tenho registros dessas ocasiões e mesmo que os tivesse eu evitaria publicar, pois, a esta altura no país isso traria riscos ao apenado. Aliás, mesmo sendo agnóstico e sabendo que muitas pessoas se oporiam, imagino que se Jesus Cristo estivesse entre nós nem sequer crucificado ele seria, para não se poder irmanar com ladrões crucificados ao seu lado. Ele seria queimado em praça pública, numa grande fogueira de ódio. Tenho, porém, o registro do abraço de uma criança num pai dentro da prisão, que fiz por ocasião de um dia das crianças e no qual se preservam as identidades. Penso que esse ato é a expressão máxima do amor entre as pessoas. Então, lá vai!

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