PODCAST #012 – MP da COVID-19

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Ricardo Mendonça conversa com @s advogad@s Fernanda Giorgi e João Gabriel Lopes sobre o impacto da MP do governo Bolsonaro na realidade dos trabalhadores em meio a pandemia e crise sanitária causada pelo Coronavírus.

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PARE

Por Wilson Ramos Filho (Xixo)

Solidariedade não é um conceito abstrato. Ou não deveria ser. Solidariedade é prática, é compromisso, é um valor social.

A tentação autoritária contaminou boa parte dos brasileiros. Muitos, motivados por bons sentimentos, acabaram se igualando àquela gente ruim que adora o punitivismo e as proibições. Parem! Só parem.

Aproveitemos esse inédito período de isolamento forçado para refletir sobre nossas vidas, sobre a maneira de existir que nos impuseram. Não precisamos viver consumindo produtos supérfluos ou ideias que não combinam com o que gostaríamos de ser e com a nossa classe social objetiva.

Olhemos para nossos guarda-roupas e verificaremos a quantidade de inutilidades que viemos acumulando ao longo do tempo. Não precisamos nem da metade daquilo. Olhemos para nossas vidas e verificaremos a quantidade de falsas certezas que se acumulam em nosso dia-a-dia.

Pare. Pense. Revisemos nossas certezas. Não existe apenas uma maneira de existir em sociedade.

A solidariedade em relação aos demais fará com que nos isolemos fisicamente de nossos familiares e amigos por algumas semanas ou meses. Nossas rotinas serão brutalmente alteradas. Esse distanciamento físico, entretanto, pode e deve ser compensado com proximidades que nossas atribuladas vidas não permitiam.

Aproveitemos esse período para revisar nossos valores e para pensar em que forma de sociedade gostaríamos de viver, que tipo de relações sociais deveríamos construir. Não percamos essa oportunidade para nos reaproximarmos de nós mesmos, daquela pessoa que éramos, daquilo que sempre fomos.

O bolsonarismo não deu certo, só criou ódio e desinteligências. O individualismo e o consumismo exagerado nos transformaram em algo que nunca desejaríamos para nós mesmos. A desigualdade social não é uma inevitabilidade. A maneira capitalista de viver em sociedade só funciona para os muito ricos, e à custa de vidas desperdiçadas. De nossas vidas desperdiçadas. Já não tivemos o suficiente para perceber que deu errado?

Wilson Ramos Filho (Xixo) é doutor em direito e integra o Instituto Defesa da Classe Trabalhadora

Solidariedades

Por Wilson Ramos Filho (Xixo)

Em um texto antigo, Boaventura de Sousa Santos identificava tipos de globalização. Os principais eram o localismo globalizado e o globalismo localizado.

Como exemplo do primeiro o autor português mencionava aquilo que surgiu em algum lugar específico e hoje é encontrado em todo o mundo, desde o hambúrguer e as fajitas até a transformação do inglês em língua franca. O que era local se tornou global.

Por globalismo localizado entende as imposições globais, tidas como inevitáveis e que são implantadas em todos os países, com efeitos desastrosos. Trazendo essa noção para os dias atuais não é difícil identificar o globalismo localizado nas políticas neoliberais e de austeridade fiscal.

O professor de Coimbra, se não me equivoco, menciona outras duas espécies de globalização: o patrimônio comum da humanidade (oceanos, Antártida, estratosfera, entre outros) e o que ele chama de cosmopolitismo.

Na espécie de globalização que denomina cosmopolitismo, Boaventura inclui as pautas identitárias e seus movimentos transnacionais, as preocupações ambientais, entre outros exemplos, e chega a mencionar o combate às doenças virais como exemplos de um aspecto da globalização nem sempre lembrado. De fato, pela própria dimensão do impacto nas vidas das pessoas, certas preocupações e atitudes só fazem sentido se tiverem amplitude e abrangência globais. Essa espécie de globalização surge no cenário internacional para influenciar comunidades humanas, territorial e temporalmente localizadas. Os vírus não respeitam fronteiras e o combate às epidemias deve se constituir em globalismo cosmopolita sob pena de ser ineficaz. O combate ao capitalismo, também, adendo eu.

Feita essa referência, aproprio-me desses conceitos, com alta arbitrariedade, para propor aos escassos amigos
que resistiram à aridez dos parágrafos precedentes uma reflexão acerca do impacto da pandemia atual sobre a vida das pessoas no Brasil.

Esse COVID-19 parece ser uma mutação de outros vírus identificados em animais encontrados em uma província chinesa. Existem outras hipóteses, mas com certeza era algo existente em um território pequeno e que se espalhou pelo mundo. Um localismo globalizado pelo comércio transnacional.

Assim como o neoliberalismo, o fascismo social inerente ao modo de produção capitalista também se transnacionalizou, impondo uma maneira de existir em sociedade caracterizada pelo individualismo e por sua degeneração, a meritocracia. Esse globalismo foi localizado, com maior ou menor sucesso, em amplitude global. No Brasil essa maneira de existir foi adjetivada. Trata-se do bolsonarismo.

Quando o localismo globalizado (o vírus) se encontra com um ambiente dominado pelo globalismo localizado (neoliberalismo austericida destruidor de direitos; aqui sob a forma de bolsonarismo) os efeitos tendem a ser catastróficos.

O ritmo do capitalismo globalizado e as relações sociais em que se assenta não resistem a esta indigesta confluência. A crise econômica em que recentemente fomos envolvidos (a quebra nas bolsas de valores e a disputa em relação ao preço do petróleo são sintomas) não permite solução dentro dos marcos daquele capitalismo globalizado, segundo a minha percepção, e coloca em risco o patrimônio comum da humanidade e o próprio planeta.

As reações à pandemia têm sido desencontradas. Transitamos entre o alarmismo (morreremos como moscas) e o negacionismo (nada mais que uma gripe como tantas outras), abrindo espaço para o charlatanismo mítico em todas as religiões e para defesas nada equilibradas de um malthusianismo enrustido quando aludem à população carcerária ou à que vive nas ruas.

A maneira de existir em sociedade é posta em questão. Racionalmente se sabe que os serviços de saúde não estão preparados para a pandemia. O contágio é progressivo, em torno de 70% das pessoas contrairão o vírus. No Brasil esse número significa algo como 140 milhões de pessoas afetadas. Entre elas encontram-se cerca de 40 milhões de brasileiros mais vulneráveis a sérias complicações (idosos, imunodeficientes, pessoas cardíacas, hipertensas, diabéticas, etc), com risco de morte. Em torno de 20% destas pessoas precisarão de maiores cuidados médicos e o país não conta com os milhões de leitos em clínicas e hospitais que seriam necessários. Estima-se que 2 milhões de pacientes dependerão de vagas em UTIs para tentar sobreviver. Obviamente o Brasil não tem como atender a tamanho desafio sem investimentos públicos em valores elevados e sem contrariar os cânones e os dogmas do neoliberalismo bolsonarista (globalismo localizado com requintes de crueldade).

A alternativa racional implica a constatação que só nos resta buscar diminuir o ritmo da contaminação, diferindo no tempo a velocidade na demanda por leitos hospitalares.

As experiências nos países asiáticos indica que para diluir temporalmente a quantidade de infectados a solução passa pelo isolamento das pessoas em suas casas onde os riscos de contaminação podem ser melhor controlados. Diminuindo-se o ritmo da proliferação da pandemia talvez (enfatizo essa palavra) os hospitais brasileiros possam se adaptar para o aumento extraordinário de pacientes. Ocorre que essa medida impactaria duramente as relações de produção. Diminuir os ritmos do capitalismo soa herético aos neoliberais e aos defensores da maneira bolsonara de existir em sociedade. As quedas na Bolsa e no mercado de petróleo são vendidos à população como mera crise econômica e não como verdadeira crise no modo de produção e no modo de vida em sociedade associado ao capitalismo. Diminuindo-se o ritmo da atividade econômica por razões de saúde pública veríamos o acirramento do fascismo social e a ampliação do delírio coletivo que encontra acolhimento nas igrejas. Não há saída fácil. Considerando-se a competência dos beócios que ocupam o primeiro escalão do governo o quadro se agrava.

Dada a dimensão transnacional do problema seria desejável uma tentativa de solução também universal, com o desaquecimento e o decrescimento global da atividade econômica. Todavia, as sequelas para o capitalismo seriam imprevisíveis, ferindo poderosos interesses, razão pela qual não se vislumbram movimentos nesse sentido.

Inviável por enquanto esta opção, que se situaria no plano da defesa do patrimônio comum da humanidade e do cosmopolitismo proposto por Boaventura de Sousa Santos no referido artigo publicado no final do século XX, resta-nos as meia-solas de sempre.

Temos que, solidariamente, tentar diminuir o ritmo da contaminação. Para isso não existe mágica. Precisaremos nos conscientizar de que, por algumas semanas ou meses, devemos evitar os espaços públicos. Dentro de nossas casas será mais fácil evitar o contágio. As crianças não podem frequentar as escolas. Embora nelas os efeitos do vírus sejam estatisticamente irrelevantes, elas podem trazer da rua o vírus que matará pessoas com saúde vulnerável. As universidades, cedo ou tarde, se convencerão da inevitabilidade da suspensão das atividades presenciais. Quem puder trabalhar em casa deve se apressar em tomar essa decisão. Mas nada disso será suficiente sem uma conscientização mais ampla que importará em uma mudança de valores e, por mais que nos esforcemos, os efeitos ficarão aquém do necessário.

Obviamente todos os eventos públicos devem ser cancelados, por maiores que sejam os prejuízos para seus organizadores. As viagens devem ser evitadas, ainda que disso decorra perda de receita para as empresas de transporte, para a rede hoteleira e para bares e restaurantes.

Haverá resistência? Muitas. E crescentes. Todos temos boletos e compromissos financeiros a serem saldados. Milhões de pessoas não têm em casa quem se ocupe de seus filhos, milhões de brasileiros e brasileiras que se submetem a iníquas relações de trabalho (pejotização, uberização, informalidade precarizada) ou que foram transformados em empreendedores de si mesmos, dependem do trabalho fora de casa. Os exemplos seriam infinitos de situações em que não sair às ruas seria impossível. Muitas delas realmente são incontornáveis.

De fato, na maneira capitalista de existir em sociedade, não haveria alternativa. Morreremos como moscas ou nos refugiaremos no conforto negacionista da gravidade da situação.

Postas assim as coisas, ocorre-me, meiaoitista, a ousadia de pensar fora dos estritos limites do individualismo e da resignação bovina quanto à eternidade da exploração capitalista. Reconheço serem impactantes as imagens das gôndolas vazias nos supermercados da burguesia (estocam tudo, sem se preocupar se faltarão produtos para os demais) e a insistência gananciosa em manter eventos públicos apesar da exposição a riscos da distinta clientela. A maneira bolsonara de existir, como epidemia, contaminou os brasileiros.

Parece-me muito razoável, entretanto e apesar de tudo, reivindicar a prevalência do coletivo sobre o particular, da solidariedade em face do individualismo, da partilha ante a desigualdade. O mal-estar social criado pela quadrilha que se adonou dos governos e das políticas públicas talvez (olhe a palavrinha aí novamente) contribua para a consciência de que o capitalismo faz mal à saúde, de que os seres humanos precisam ter sua humanidade respeitada e para reinventar solidariedades. Vivíamos no Brasil uma era de obscurantismos. Agora, teremos que conviver com ampliadas incertezas em meio às trevas da negação das evidências científicas e racionais. Não será fácil. Nosso desafio será, em síntese, contrapor ao individualismo fascistóide os valores da igualdade e da solidariedade.

Wilson Ramos Filho (Xixo), doutor em direito, integra o Instituto Defesa da Classe Trabalhadora.

PODCAST #011 – DESCRIMINALIZAÇÃO DAS DROGAS

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Nasser Allan conversa com o Martel Alexandre Del Colle, policial militar aposentado e o professor Dr. Francisco do Rego Monteiro Rocha Júnior sobre a guerra às drogas e os desafios da descriminalização.

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ABRAÇO PESSOAS PRESAS

Por João Marcos Buch

Sempre  que vou às prisões, cumprimento a todos, individual ou coletivamente, desde os trabalhadores do sistema aos recolhidos por ele. Estendo a mão e digo “bom dia”, “boa tarde” ou “boa noite” — já inspecionei cadeias até de madrugada. Com relação à população carcerária, existem algumas regras próprias. Detentos pertencentes a certas facções não estendem a mão e cumprimentam apenas verbalmente. É uma regra que já virou costume e não adentrarei nas suas razões. Ainda assim, todos cumprimentam. Se minha conversa é de janelas superiores para pátios lotados de detentos, ao dizer “bom dia” ouço em coro e uníssono tom um forte “bom dia” como resposta. Quando é face a face, o “bom dia” é automático. O fato é que os cumprimentos sempre acontecem, seja com um aperto de mão, seja com um “bom dia”, seja com um aceno. Agora entro na questão do abraço. Nos protocolos de conduta, o abraço é algo mais íntimo, uma demonstração de afeto no mínimo. Em algumas culturas ele é mais comum e noutras mais raras. Tenho um amigo que sai abraçando a todos que encontra pela frente, ele não economiza abraços, mesmo em tempos de histeria viral. Já eu, sou muito restrito. Essa é uma característica talvez cultural e própria da minha família. Pouco nos abraçamos. Já no meu trabalho, dentre as funções que me cabem, especialmente as de executar penas e fiscalizar as condições do cárcere, o ato de abraçar definitivamente não está contido, mas sou humano, e nessa humanidade ele existe. Então, quando algum detento, por um motivo qualquer, por simples afeto ou em agradecimento por alguma decisão que proferi, como, por exemplo, a autorização de saída para acompanhar o parto de um filho, pede para me abraçar e não existe uma grade entre nós abraço, sem problema algum. Nunca pergunto sobre o crime a que ele foi condenado, sobre seu comportamento na prisão, sobre o que pensarão moralistas de ocasião, eu simplesmente abraço e ponto final. Não tenho registros dessas ocasiões e mesmo que os tivesse eu evitaria publicar, pois, a esta altura no país isso traria riscos ao apenado. Aliás, mesmo sendo agnóstico e sabendo que muitas pessoas se oporiam, imagino que se Jesus Cristo estivesse entre nós nem sequer crucificado ele seria, para não se poder irmanar com ladrões crucificados ao seu lado. Ele seria queimado em praça pública, numa grande fogueira de ódio. Tenho, porém, o registro do abraço de uma criança num pai dentro da prisão, que fiz por ocasião de um dia das crianças e no qual se preservam as identidades. Penso que esse ato é a expressão máxima do amor entre as pessoas. Então, lá vai!

PODCAST #010 – QUAL O PAPEL DA POLÍCIA NA DEMOCRACIA?

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Nasser Allan conversa com o Martel Alexandre Del Colle, policial militar aposentado engajado no movimento “Policiais Antifascismo” e o professor Dr. Francisco do Rego Monteiro Rocha Júnior sobre o papel da polícia na democracia brasileira.

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Unicórnio – Wilson Ramos Filho (Xixo)

As redes sociais da Direita estão em polvorosa. Muito para além dos robôs e dos mercenários contratados para disseminar mentiras no WhatsApp, por exemplo, existem milhares de grupos de gente ociosa que se obstina em compartilhar inverdades e vultuosas provocações de comportamentos odiosos. As mais frequentes nos últimos dias podem ser agrupadas em dois conjuntos temáticos. Os que difundem o ódio ao Papa, integrante de uma suposta articulação comunista internacional, e os que pinçam nos noticiários informações que comprovariam a deliberada conspiração dos meios de comunicação para prejudicar os Bolsonaros e a maneira de existir em sociedade que eles representam.

A eficiência destes grupos de WhatsApp em conformar um delirante senso-comum impressiona. Não se trata apenas de normalizar aberrações. Antes, configura-se um perverso mecanismo de construção social da realidade, de uma realidade que apenas os iniciados no bolsonarismo conseguem perceber. Isso explicaria, em parte, a impossibilidade de diálogo racional com eles.

Presunçosos, seus aderentes desqualificam todas as tentativas de argumentação em sentido diverso, mesmo quando confrontados pelas evidências.

Há também os prepotentes, de dois tipos. Os que integram a Direita Concursada (dentro dela, os integrantes do aparato repressivo estatal) e os que trafegam no território dos amigos imaginários (nas igrejas e em templos de compartilhamento de espiritualidades) deduzindo do sagrado e de esoterismos diversos e suas forças normativas as certezas de que podem impor aos demais suas íntimas convicções de forma tirânica, imunes à crítica alheia. Em ambos grupos, diferentemente do que ocorre com os presunçosos, seus integrantes exercem algum tipo de poder sobre os demais, seja econômico, seja repressivo, seja religioso.

Presunçosos e prepotentes, ausentes freios democráticos ou focinheiras institucionais a limitar-lhes, cedo se convencem de que são onipotentes quando encontram um líder a quem admiram e com quem se identificam.

E os onipotentes, naturalmente, tudo podem: desde afrontar a Constituição declarando a ilegalidade de greves até agredir diretamente profissionais de imprensa com insinuações de natureza sexual. A realidade mítica em que vivem valida condutas presunçosas, prepotentes e onipotentes que visam, antes de tudo, destruir quem resista ao delírio coletivo em que se inserem.

Seguem o Mito encarnado, desprezam evidências de que o país está sendo destroçado, acreditam na miragem da recuperação econômica, entorpecem-se com as mentiras que compartilham nas redes sociais.

Resulta inútil tentar demonstrar a impossibilidade lógica da existência de amigos imaginários a quem os tem, assim como não adianta esfregar na cara dos bolsonaristas a realidade que eles, acometidos de cegueira córnea, não conseguem ver. Não querem, não precisam e não gostariam de enxergar, convictos em suas presunções, em suas prepotências e em suas inexistentes onipotências. A fé tem disso, integra a dimensão mítica, delirante, lisérgica, que, para quem nela
acredita, deixa de ser mito para se configurar em realidade, tão ou mais real que aquela com a qual nos deparamos ao abrir uma janela ou ao caminhar pelas ruas. O unicórnio existe, qualquer de nós é capaz de descrevê-lo. Existe como mito, é real.

A realidade inventada, construída socialmente por intermédio das redes sociais da Direita, unicórnica, compete com a realidade concreta, áspera, rude, material, histórica em que estamos todos, inclusive eles, imersos. O mito para os bolsonaristas é real e desejado, por identificação narcísica. O real, para nós, é incompatível com o mito e com as atitudes presunçosas, prepotentes e falsamente onipotentes, como a liminar que proíbe a greve dos petroleiros e os ameaça com sanções discipinares, como a agressão injustificada a jornalistas que ousam investigar e descortinar a realidade concreta. Vivenciamos a impossibilidade, temporária por ser histórica, de diálogo e de conexão entre realidades paralelas.

Wilson Ramos Filho (Xixo), doutor em direito, professor na UFPR.

Circense – Wilson Ramos Filho (Xixo)

O aparato repressivo está descontrolado e sem limites no Brasil. Isso era previsível. O Golpe de 2016, ao romper com a periodicidade e com o respeito à integralidade do mandato da presidenta, trazia a instabilidade institucional junto com a farsa da perda da governabilidade.

Desde então as cinco patas do monstro trôpego (o mercado, a direita concursada, os cristãos conservadores, os militares e a “elite” autoritária) se enredam estagnando o país, algumas vezes fazendo-o recuar. O Brasil desde então tropeça e se movimenta como aberração.

Nas últimas semanas a deriva autoritária se acelerou. O presidente do STF restabeleceu decisão destrambelhada para tentar proibir a greve dos petroleiros, violando disposição expressa da Constituição. Não se trata de ato isolado, sabemos. O Poder Judiciário desempenhou um papel central na destruição da institucionalidade democrática ao permitir o Golpe, ao validar todos os desmandos da Lava-Jato, ao impedir a candidatura Lula facilitando a eleição de Bolsonaro. Mas agora, com a decisão sobre a greve dos petroleiros o Judiciário ultrapassou o ponto de não-retorno. Venho repetindo, nos últimos 4 anos, que o Direito morreu. Esta decisão incinerou o cadáver. Do Direito que conhecíamos restaram apenas cinzas espargidas aos ventos do fascismo social.

O aparato repressivo é hierarca, segue o comando da cúpula. Desde os primeiros indícios de leniência suprema os juízes inferiores e os integrantes do ministério público se sentiram liberados para praticarem arbitrariedades diversas, assim como os distintos órgãos policiais se sentiram autorizados a agir segundo suas convicções e, fundamentalmente, liberaram-se dos freios que inibiam suas perversões.

A queima de arquivo, o assassinato de um miliciano que frequentava a cozinha da família Bolsonaro, em atividade conjunta da polícia civil carioca e da polícia militar baiana, constitui mero episódio da degenerescência institucional que vivenciamos. A impotência do governador da Bahia para lidar com este caso é paradigmática e concludente.

O aparato repressivo a serviço da ordem capitalista, como se sabe, não é apenas estatal. Integra-o um emaranhado de instâncias reticulares que vão desde as milícias organizadas em bairros populares até agentes particulares da segurança patrimonial, passando pelas guardas municipais, pelos “gladiadores da fé” ou estruturas confessionais assemelhadas e, algo aparentemente contraditório, inclusive, por parcelas do crime organizado em conluio com o aparato estatal em alguns territórios determinados.

Essa maneira bolsonara de existir em sociedade é hegemônica em todo o aparato repressivo, estatal ou para-estatal. Há tensões e resistência, todas louváveis, em cada uma dessas instâncias dedicadas à repressão e à indução de condutas, mas é inegável que a grande maioria de seus agentes individuais se ajusta à ideologia da Direita Concursada e aos interesses do mercado, com o apoio do estamento militar e das igrejas, todos alinhados ao pensamento aporofóbico e conservador da pequena-burguesia, a chamada classe-média, conformando o monstrengo desajeitado de cinco patas que se apresenta ao mundo e ao que remanesce de setores democráticos no Brasil, como atração de um circo medieval, prenhe de aberrações normalizadas.

Wilson Ramos Filho (Xixo) é doutor em direito, professor na UFPR.

Continuaremos a apoiar meninas e mulheres na ciência?

Por Ana Júlia

Para quem não sabe, no dia de 11 de fevereiro se comemora o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência. A data foi escolhida pela Assembleia das Nações Unidas em 22 de dezembro de 2015. A comemoração é uma maneira de a ONU incentivar as mulheres e meninas a terem plena participação na ciência. Para além disso, e fundamentalmente, para que se concretizem as oportunidades e condições necessárias para alcançar a igualdade de gênero.

Contudo, o dia 11 de fevereiro já acabou. As comemorações e lembranças de que mulheres produzem ciência, tecnologia e inovação já ficaram para trás. Claro, não podemos viver apenas de comemorações. Mas, o que me chama a atenção é se continuaremos, realmente, incentivando meninas e mulheres a adensar a ciência brasileira? No restante do ano iremos lembrar de incentivar as mulheres a produzirem ciência? Vamos lembrar que infelizmente as mulheres começam essa trajetória em pé de desigualdade com os homens? Professores, os senhores vão parar de sexualizar as estudantes? De não desmerecer ou subjugar nossos trabalhos? Vão parar de fazer piadinhas que incluam nossos corpos ou que nos tragam constrangimento? Os senhores, irão parar de nos assediar? Será que finalmente iremos nos debruçar em efetivar políticas publicas que auxiliem as cientistas que também são mães? Para começar, seria bom se tivéssemos diferentes parâmetros para avaliar os currículos dessas mulheres. Um bom exemplo é deixar de avaliar o período de afastamento após o parto como queda de produção cientifica.

A participação das meninas e mulheres na ciência ainda enfrentam problemas muito maiores quando estas são trabalhadoras, são pobres, são negras ou são transexuais. Não por acaso, mas muitas vezes todos esses adjetivos incorporam a mesma mulher. O obstáculo então, não é apenas para poder produzir ciência e conhecimento, mas também de ter direito à educação e possuir a real oportunidade de acesso à universidade. É dever de todos que acreditam na igualdade de gênero também atentarem seus olhares a estas mulheres, de maneira a procurar entender suas particularidades, os incentivos e apoios que precisam para produzirem com qualidade, ciência, tecnologia e inovação.

Brevemente quero homenagear duas grandes mulheres cientistas e pesquisadoras. A primeira, é a minha prima Jéssica, oriunda da terra vermelha do interior do Paraná, filha de metalúrgico e de secretária, fruto das escolas públicas chateubriandenses. Ela foi a primeira da minha família a conquistar a tão sonhada vaga numa universidade pública. Também foi a primeira a provar que todos nós podemos. Atualmente atua como médica veterinária, tendo sido a primeira da família a conquistar um mestrado. Conhecedora de sua garra e dedicação, sei que também será a primeira doutora. Obrigada Jéssica por abrir as portas das universidades públicas para nós. A segunda, infelizmente eu não conheço pessoalmente, mas além de ser uma inspiração à todas as mulheres, abrange uma imensa coletividade. Seu nome é Megg Rayara Gomes de Oliveira, mulher negra e travesti, a primeira a conquistar o título de doutora na UFPR, onde hoje também é uma impressionante professora. Obrigada Megg por nos ensinar todos os dias.

Saliento que nós mulheres já tivemos muitas conquistas, mas elas ainda são poucas e poderiam ser muito maiores. Assim, penso que nesta contemporaneidade, devemos também lutar e defender a ciência que sofre com a política de sucateamento. Nesta batalha, será necessário irrestritamente pautar a igualdade de gênero, mas sobretudo pautar a igualdade para as mulheres que ainda não foram incluídas.

Por mais mulheres na ciência. Mulheres trabalhadoras. Mulheres pobres. Mulheres negras. Mulheres transexuais e travestis.