Lançamento do 1º Barômetro de Alerta para a situação dos direitos humanos no Brasil.

CONVITE A COLETIVA DE IMPRENSA

O Brasil resiste.
Lutar não é um crime

Lançamento do 1o Barômetro de Alerta para a situação dos direitos humanos no Brasil

Quinta-feira, 30 de janeiro às 9h30
CCFD-Terre Solidaire (4, rue Jean Lantier – 75001 Paris)

Em presença dos 17 membros da Coalizão Solidariedade Brasil*



Paris, 23 de janeiro de 2020. A Coalizão Solidariedade Brasil convida-os a conhecer as conclusões do Barômetro de alerta para a situação dos direitos humanos no Brasil (2019), produzido por seus membros. O trabalho constitui o primeiro estudo que propõe um relatório detalhado e atualizado sobre a situação social do Brasil.

Um ano após a chegada de Jair Bolsonaro ao poder, colocou-se a necessidade de elaborar um documento visando:

– medir a pressão e a as violências sofridas pelos movimentos e pelas organizações da sociedade civil brasileira.

– destacar as lutas e as resistências destes mesmos atores nos territórios.

O barômetro apresenta-se como uma cartografia das diferentes categorias sociais criminalizadas no Brasil: povos indígenas, comunidades camponesas sem terra, afro-descendentes, pessoas LGBTQI+, mulheres, etc.

Os elementos apresentados e os dados coletados são o fruto de análises e relatórios produzidos pelas organizações brasileiras e pelos movimentos sociais parceiros da Coalizão Solidariedade Brasil. Esse texto resulta, assim, de estudos e trabalhos de pesquisa mas também de experiências vividas pelas organizações engajadas no terreno, realizando quotidianamente um trabalho de defesa dos direitos humanos e do meio ambiente.

As conclusões do Barômetro confirmam um aumento nesses últimos anos da violência contra os defensore/as de direitos e das categorias sociais excluídas.

A título de exemplo, entre 2016 e 2018:
– As vítimas de feminicídios1 aumentaram 29,8%**.
– As vítimas de violências policiais aumentaram 47,3%***.
– O número de hectares de terras em conflito aumentou 67%****.
– O número de indígenas assassinados aumentou 141%*****.

Instrumento de informação e alerta, esse barômetro constitui a primeira etapa da campanha “O Brasil resiste. Lutar não é um crime”. Em um segundo momento, é por meio da interpelação de governantes e tomadores de decisão franceses e europeus que os membros da coalizão contam apoiar e proteger os atores da sociedade civil brasileira.

CONTATOS DE IMPRENSA:

Favor confirmar sua participação antes de 28/1 com:

• Sophie Rebours, CCFD-Terre Solidaire :
s.rebours@ccfd-terresolidaire.org, 01 44 82 80 64/07 61 37 38 65
• Lucas Hauser, Autres Brésils :
lucas@autresbresils.net, 01 40 09 15 81/ 06 37 26 87 34

Barômetro disponível de forma restrita.

*A Coalizão Solidariedade Brasil é composta pelas 17 organizações de solidariedade internacional :

Act Up Paris, Acteurs dans le monde Agricole et Rural (AMAR), Attac France, Autres Brésils, CCFD – Terre Solidaire, Centre d’études et d’initiatives de solidarité internationale (Cedetim), Centre d’étude du développement en Amérique Latine (CEDAL), Centre de recherche et d’information pour le développement (CRID), Comité des Amis des Sans Terre du Brésil, Comité de solidarité avec les Indiens des Amériques (CSIA-Nitassinan), Emmaüs International, France Amérique Latine (FAL), France Libertés, Internet sans frontières, Planète Amazone, Red.br, Secours Catholique -Caritas France.

* Assassinato de mulheres por sua identidade de gênero, crime tipificado em lei em 2015 (França).
** Fórum Brasileiro de Segurança Pública, edições 2017 e 2019 do Anuário Brasileiro de Segurança Pública.
*** Idem.
**** Comissão Pastoral da Terra. Relatório “Conflitos no campo – Brasil”, 2018.
***** Conselho Indigenista Missionário (CIMI), Relatório “Violência contra os Povos Indígenas no Brasil”, 2016 e 2018

Decidível – Wilson Ramos Filho (Xixo)

Não conheço nenhuma pessoa que tenha deixado de apoiar Bolsonaro por conta da ideologia de seu governo. Mesmo depois de todos os disparates dos filhos, dos ministros e do próprio presidente a maioria das pessoas que escolheram votar em Bolsonaro seguem apoiando sua proposta de maneira de existir em sociedade.

Certamente deve haver um ou outro que se diga decepcionado, mas não a ponto de fazer autocrítica ou de mudar de lado. Vejo alguns que até, moderadamente, o criticam por não cumprir integralmente com o que dele esperavam, mas seguem lhe emprestando apoio. Muitos projetam aprofundar a partir de 2022, com Moro, Huck ou Amoedo, “o que tem que ser feito”. Não vejo, entre os eleitores do jaguara, quem critique seu obscurantismo ou o autoritarismo que lhe é constitutivo a ponto de se arrepender do voto em 2018.

Ninguém deixou de apoiar o bolsonarismo por causa da nomeação ou do conteúdo nazista do programa para Cultura lançado por Alvim, recém demitido. Para se ter a real dimensão do problema, nem na comunidade judaica ou nos grupos que congregam homoafetivos, vítimas preferenciais do nazismo, vislumbra-se debandada no apoio à maneira bolsonara de existir. Criticam o subordinado poupando quem o nomeou e se calam quanto aos horrores relativos à compreensão bolsonara a respeito do que seja cultura.

Nos setores populares que sustentam o bolsonarismo a precarização das políticas públicas para pobres não erodiu o apoio ao governo. No empresariado, que perdeu lucratividade e consumidores de seus produtos e serviços pela diminuição da renda de sua distinta clientela, também não se vislumbram defecções significativas. Curiosamente, nem sentindo no bolso as consequências de sua escolha eleitoral os bolsonaristas, sejam trabalhadores, sejam empresários, abandonam o apoio ao governo. No máximo se fazem de desentendidos, como se não tivessem responsabilidade pela destruição do país.

A teoria matemática dos problemas criou uma categoria para nela incluir os que não podem ser resolvidos com algoritmos: seriam os indecidíveis.

Muitos de nós se perguntam como reagir frente ao que estamos vivenciando. Estaríamos diante de um problema indecidível? A própria formulação desta indagação talvez seja uma das possíveis manifestações desse tipo de problema.

Não tenho a resposta, mas intuo que dentro dos marcos da institucionalidade bolsonara, aquela criada pelo Golpe de 2016, a solução não será encontrada. Metaforicamente, os algoritmos da sociabilidade que experimentamos (com uma irascível Direita Concursada, um cristianismo reacionário que se retroalimenta nas penumbras da “tolerância religiosa”, um fascismo social punitivista normalizado, com valores capitalistas introjetados socialmente, etc) não permitem a resolução do problema. Para resolvê-lo se faz necessário escapar da ética capitalista condicionante.

Arriscaria supor que, como há um século, quando ainda não existia o Estado Social de Direito, a solução seja escapar da racionalidade totalizadora da resignação diante da iniquidade e da injustiça inerente ao modo de produção que nos garroteia, começando pelo esforço diário no exercício da legítima defesa, com violência equivalente e proporcional à agressão, para pouco a pouco coletivamente se construir uma plataforma anticapitalista que possa ser oposta à maneira bolsonara de existir. Não é fácil, mas a história já provou ser possível. A proposta de sociabilidade autoritária dialoga, mais do gostaríamos de admitir, com certas defesas de pautas identitárias ensejando maldades e desinteligências . Pior, exerce perversa sedução nos setores mais sensíveis ao individualismo e à tribalização aglutinadora de afinidades identitárias. Dentro dos cânones desta racionalidade conformista os problemas são indecidíveis, embora a mesma açoite os mais sensíveis como inevitabilidade, ou remeta os menos rústicos ao aparente conforto dos esoterismos. Fora dela, como utopia, como dimensão onírica, talvez. Nas atuais circunstâncias um mero talvez já serve de alento a quem não suporta a desigualdade e, acometido de meiaoitismo irrecuperável, ousa ser razoável e demandar o impossível.

Wilson Ramos Filho (Xixo), doutor em direito, preside o Instituto Defesa da Classe Trabalhadora.

A democracia vai voltar com força

Por Gustavo Conde

Eu sei que parece estranho. Mas eu continuo lendo os sites dos grandes jornais brasileiros para acompanhar como a matriz do sentido político que opera nos bastidores vai se reorganizando.

Não faço o gênero “não leio mais; Folha não entra em casa, Estadão é lixo etc”.

Eu leio para criticar ou, se for o caso, até elogiar.

O mundo do discurso está em forte aceleração. Bolsonaro se coloca como inimigo da imprensa e uma certa esquerda também. É preciso tomar cuidado, porque a linguagem é ingrata e reorganiza o cenário ideológico à revelia de seus usuários.

De uma certa maneira, essa repulsa à imprensa une bolsonaristas e esquerdistas.

É hora de tomar cuidado e de sermos inteligentes.

A mágoa, o trauma e o despeito são sentimentos improdutivos neste momento.

Lula está falando com evangélicos. Partidos de colorações historicamente opostas estão se aliando (PDT e DEM). O governo rasga a fantasia de nazista e muita gente ainda hesita em aceitar essa realidade.

2020 vai ser um ano cascudo, talvez mais “longo” e complexo que 2019. Mas é o ano do desenlace. Nós precisamos produzir esse desenlace para que seja possível sair dessa imensa armadilha e continuarmos “escravizados” pela pauta regressiva do bolsonarismo.

Ninguém aguenta mais isso, nem a elite brasileira. Está tudo muito feio, muito difícil e muito vergonhoso.

O apoio que Bolsonaro tem é apenas dos antipetistas intelectualmente fragilizados e fortemente influenciáveis como Fábio Porchat, Luciano Hang, Regina Duarte e congêneres.

Esse é um dos corolários do mundo dos sentidos e do discurso: se se está contra o PT (neste momento, no Brasil) está-se a favor de Bolsonaro. É uma regra do discurso, não há como lutar contra ela.

O caso de Fábio Porchat é pedagógico: alardear o antipetismo é se alinhar automaticamente a Bolsonaro. Não sou quem diz isso, é a opinião pública, a conjuntura político-partidária, o Twitter, a conversa na fila do emprego.

Esse fenômeno é tecnicamente chamado nos estudos da linguagem de “realidade do discurso”.

Claro que você pode não aceitá-la, mas o resultado prático de sua posição será esse: você apenas não aceita uma realidade imposta pela organização dos sentidos políticos de turno. Vai ficar à deriva até sua posição conquistar densidade suficiente para se impor como “realidade discursiva”, o que pode levar dez, cem ou mil anos.

Resistir à realidade, aliás, é o ofício de muita gente no Brasil, não só à realidade discursiva, mas à realidade factual (como a esfericidade da Terra).

O cenário para o PT, Lula e a democracia, portanto, é espetacular. Os maiores inimigos do êxito previsível subscrito nessa constatação do mundo do discurso somos nós mesmos, com a nossa intolerância estrutural (compreensível, mas limitadora).

Ou seja: está tudo em nossas mãos, é só querer.

O ano de 2020 começou muito acelerado, com situações-limite. Trump atacou o Irã e Petra Costa foi indicada ao Oscar. O secretário de Cultura teve um surto nazista e outro secretário (de Comunicação) está atolado em práticas de corrupção.

Tudo, absolutamente tudo, nos é favorável. Os céticos de plantão (eles servem para isso: para serem céticos de plantão) irão dizer que não, que Bolsonaro está forte, que a elite brasileira é sanguinária e “que” eles vão ganhar as eleições em todas as cidades do país.

É chique ser cético. É o antídoto para parecer inteligente sem sê-lo de fato. Não falha.

Mas a realidade factual, política e discursiva é bem outra. E ela está trepidando diante de nossos olhos todos os dias.

Outro recado importante: acompanhar tudo isso através daquilo que nos é oferecido pelas mídias convencionais ou não é passo obrigatório na caminhada rumo à redemocratização do país.

Mas conversar com as pessoas nas ruas é ainda mais importante.

Muita gente faz aquela pergunta boba e batida: “por que as pessoas não saem às ruas para protestar?” e permanece em casa ou no trabalho reclamando da vida.

Ora, cara pálida! Saia você na rua!

Saia e converse com as pessoas. Com o povo trabalhador, com o garçom, com a atendente da livraria, com o caixa de supermercado, com o cobrador de ônibus, com o motorista de Uber, com o entregador da iFood.

Converse. É a melhor fonte de informação do país e da realidade que pode existir. Não há nada que supere uma conversa real com uma pessoa real vivenciando os problemas reais diante de uma monumental crise econômica real.

Quem tem medo de conversar?

A esquerda é valente. É o ponto fora da curva de um país que deveria – devido a certas pressões históricas – ter sido majoritariamente conservador. Não é. Bolsonaro é um soluço histórico.

Lula é a realidade.

O PT e Lula não brincam em serviço. Nunca brincaram. Eles vão vencer de novo e a explicação para isso é simples: eles constroem a vitória com paciência, espírito democrático e inteligência.

A mais nova prova dessa inteligência e dessa profunda conexão com a realidade é a volta do slogan “Lula Livre”.

Lula está solto, não livre. Esse é o raciocínio dotado da inteligência desproporcional de Lula. O mote Lula Livre é poderoso e está impregnado das emocionalidades da Vigília, da prisão política e da ansiedade por democracia que todo povo trabalhador experimenta nesse momento.

É preciso catalisar essa energia social e usá-la em nosso favor.

O sofrimento auto consentido de setores da esquerda neste momento é pura munição para os derrotados de sempre que querem mais vez vencer no grito e no golpe.

Nós precisamos romper com esse vício de nos fingirmos de derrotados. Não somos nós os derrotados, são eles. Nós somos os mais vitoriosos trabalhadores deste país e viramos um jogo histórico numa saga democrática sem precedentes de muita luta e muita fibra, inspirados pela maior liderança política de todos os tempos que é Lula.

Como diz a nossa guerreira de primeira ordem, Dilma Rousseff: não ficará pedra sobre pedra.

E quando esses escombros do golpe forem se avolumando nas derrotas eleitorais subsequentes dos artífices do horror, nós construiremos o país mais uma vez, sobre bases mais sólidas e estruturas mais amplas.

É preciso devolver a humanidade à nossa própria possibilidade de futuro.

Gustavo Conde é mestre em linguística pela Universidade Estadual de Campinas. Trabalha com teorias do humor e com a história da representação do riso. As áreas do conhecimento que caracterizam sua pesquisa são: análise do discurso, psicanálise e semiótica.

A guerra ‘familiar’ entre Jair Bolsonaro e Rede Globo

Por Gustavo Conde

Nos governos do PT, a gente ouvia a seguinte recomendação: ‘desliga a Globo que tudo melhora’.

Agora, com Bolsonaro, mudou. É: ‘se desligar a Globo, tudo piora’.

Curiosamente, ambos enunciados atendem ao mesmo pressuposto: a Globo esconde a realidade.

Quando esta realidade era boa, nos governos Lula e Dilma, a Globo criava seu Brasil particular de catástrofe, corrupção e violência. Desligá-la, naquele momento, seria dar uma chance ao país.

Hoje, com o Brasil mergulhado na corrupção explícita e assentida da extrema-direita, a emissora nos brinda diariamente com um Brasil cor-de-rosa, estabilizado, democrático e cheio de esperança.

A gente até brinca se perguntando: “aonde está a esperança? Resposta: “nos jornais”.

Desligar a Globo, no entanto, continua sendo a condição básica para que se possa existir um Brasil real.

Não se pode mais contemporizar com essa aberração: uma emissora que nasceu debaixo dos favores de uma ditadura sangrenta e que colaborou com essa ditadura sendo, portanto, co-autora de milhares de assassinatos entre os anos de 1964 e 1985.

Enquanto a sociedade brasileira progressista continuar naturalizando a Globo, o Brasil jamais conquistará sua soberania.

É preciso coragem para tocar nessa que é a maior ferida de nosso tempo. A emissora do Jardim Botânico não tem interesse em um Brasil forte e democrático.

Todos sabemos disso, mas é preciso, às vezes, dizer o óbvio.

A conformidade com essa constatação também nos paralisa enquanto nação e enquanto sujeitos. Acostumamos a ver novelas, a assistir programas de auditório, a torcer pela seleção brasileira de futebol… Tudo na mais tranquila e pacífica normalidade, como se todas essas práticas não caracterizassem uma das mais brutais engrenagens de concentração de renda do nosso horizonte.

Mais que isso: três novelas diárias roçam a extravagância para um país que se pretendia potência econômica. São três horas de força de trabalho (ou de leitura ou de estudo ou de caminhada ou de empoderamento de mulheres e homens) jogadas no lixo. Um desperdício cognitivo de respeito.

Dá-lhe sedentarismo, obesidade, doenças do coração e falta de assunto: as novelas foram, durante muito tempo, tema hegemônico nas práticas conversacionais no cotidiano do trabalhador. Era novela, futebol e o famoso “deu na Globo”.

Hoje, as novelas não têm mais essa audiência incapacitante. Mas elas já responderam por 80% do mercado de telespectadores – mercado de gente – no país. Achar essa experiência divertida e nostálgica é pertencer ao grupo que não tem interesse em construir uma sociedade real, humana e democrática – é pertencer à classe de brasileiros desinteressados por tudo aquilo que se relaciona com soberania e autoestima.

Ouro processo de eufemização comum no que diz respeito à naturalização da Globo é elogiar a teledramaturgia brasileira para atenuar o quadro devastador de concentração subcultural. Mais que eufemismo, é um escárnio.

A Globo ‘matou’ o cinema e o teatro brasileiros, relegando ambos a vetor confirmatório do mercado de novelas, a verdadeira fonte de dinheiro que abocanhou 90% da publicidade brasileira segmentada por mais de 30 anos. É concentração de renda e precarização profissional para ninguém botar defeito, uma verdadeira “proto-uberização” do ator e de profissionais no ramo das artes.

O cenário, hoje, é ainda mais perigoso. A mudança de tecnologias pressiona a emissora e a tensão política e social vai se instalando – lentamente, como sói acontecer em um país que voltou à democracia tutelado pela elite escravocrata.

Os frutos podres deixados por tamanha hegemonia midiática e financeira começam, finalmente, a exalar o forte odor da contaminação.

Bolsonaro é a gangrena da Rede Globo. A ferida na perna que infeccionou e não foi tratada. A face aterrorizante de uma empresa que sempre adocicou sua imagem para o público, com músicas-tema de Marcos Valle e linguagem visual de Hans Donner, para celebrar um Brasil de sonho (que, na verdade, configurou um Brasil de pesadelo). Uma overdose cognitiva para esmagar qualquer subjetividade.

Ferida não tratada, corpo doente.

Mas se a metáfora biológica impacta o senso, a simbólica é ainda mais pedagógica.

A Globo só poderia ser destruída por ela mesma. Seu subproduto instalado no Planalto é seu grande problema neste momento. A batalha hamletiana não é entre Bolsonaro e os filhos biológicos, mas entre Globo e seu filho simbólico e político: Bolsonaro.

E se o sistema Globo, como bom “pai”, passa a mão na cabeça do filho-problema, este filho lhe restitui a imagem de pai opressor, violento, mentiroso e prepotente.

É o caso clássico de criatura que se volta contra o criador.

Ativemos a memória: aquele piti de Bolsonaro, quando da live em Riad, na Arábia Saudita, não era “o pai defendendo o filho”. Era um filho em revolta com o próprio pai, o filho Bolsonaro ferido em sua estrutura simbólica, adquirindo autonomia e denunciado o pai opressor que tudo pode e tudo vê – a Rede Globo – pai este, no entanto, levemente enfraquecido pela ascensão do filho pródigo em um dos escaninhos mais importantes de poder, a Presidência da República.

A luta entre Bolsonaro e Globo é real, mas é uma luta familiar, não um embate conceitual entre duas forças distintas e opostas.

Toda a dor que é testemunhar o pior governo da história do Brasil sendo acalentado pelos grupos de comunicação em pânico preventivo pela previsível volta da soberania nacional nas próximas eleições, pode significar, na verdade, o prenúncio da superação do mais sórdido capítulo da história brasileira: a Rede Globo está em um processo de autodestruição compulsória através da revolta bestial de seu filho pródigo.

Ao custo de uma economia destruída, do extermínio de povos inteiros, da devastação do meio ambiente, do retrocesso educacional, da morte do jornalismo e da entrega de todas as riquezas naturais, podemos ainda sair no lucro, extirpando de vez essa colossal máquina de moer carne que é a Rede Globo de Televisão.

E como se daria concretamente essa autodestruição? Explico ponderando sobre um ceticismo estrutural que nos povoa a ideia: analistas costumam subestimar a energia social acumulada que serve de estopim para grandes mudanças conjunturais – a observância empírica costuma ser seletiva.

Nós acabamos de ver, entretanto, o poder de um bombardeio semiótico impiedoso contra um partido político e um projeto de governo destruir a democracia e nos deixar sob escombros institucionais.

Findo esse processo de demonização do PT e reiniciado o ciclo dos grandes embates narrativos, a próxima vítima lógica é a Rede Globo, a grande incitadora do ódio que corroeu a democracia e que agora se depara com a prestação de contas exigida pela história.

E “quem” é a prestação de contas da Globo? Essa prestação de contas atende pelo nome de Bolsonaro. Ele e sua indústria de mentiras apontam seus canhões ao império dos Marinho como nunca antes na história deste país. O filho (Bolsonaro) quer o poder do pai (Rede Globo).

A Rede Globo experimenta o massacre pelo qual o PT passou nos últimos 17 anos. É um processo sem volta e sem controle.

O arrocho da Secom, as declarações hostis e a forte tensão que paira sobre profissionais da emissora são só um detalhe diante da monumentalidade da energia social acumulada ao longo de 55 anos de fascínio misturado à paralisia política e pulsão de morte.

Toda essa energia está sendo potencializada, neste momento, nas redes sociais bolsonaristas e, pior: nas redes sociais progressistas.

Há uma curiosa conjunção de interesses em curso neste momento: tanto a democracia quando o fascismo querem se ver livres da Rede Globo, querem um campo de batalha para chamar de seu.

O filho pródigo da Globo veio, afinal, para destruí-la e, daqui a alguns anos, o Brasil pode não ser mais o mesmo.

O preço de se ter um golpe e um Bolsonaro na sequência pode ser, finalmente, o fim dessa experiência sufocante e opressiva que é depender de uma emissora de televisão para confirmar o que existe e o que não existe neste país.

A última façanha da Rede Globo, que poderia figurar em seu epitáfio, foram as jornadas de 2013. Reconheça-se que a Globo conseguiu a proeza de produzir as mais espetaculares imagens de manifestação popular instrumentalizada da história.

Bolsonaro, que era só uma peça nessa engrenagem de produção de ódio coletivo da Globo, escapou ao controle, tomou a dianteira da situação e, com a comunicação de guerra das redes sociais, impôs uma derrota à emissora, que foi obrigada a assistir a sua criação grotesca tomar a posição que deveria ser de um preposto com ares mais aristocratas.

Portanto, não é trivial falar da guerra Bolsonaro-Globo. São faces da mesma moeda, mas que em função de uma brisa histórica, mergulharam em uma espiral de autodestruição mútua, velada e dolorosa – inclusive para os que assistem.

Fato é que: jamais seria possível a existência um país soberano e democrático sob uma emissora deste porte operando com tamanha desenvoltura em todos os níveis de poder da República.

Na falta de um caminho racional para se discutir essa hegemonia opressora e na covardia estrutural de toda a sociedade brasileira e da respectiva classe política para encarar o desafio de ‘peitar’ a Globo, o próprio sistema ofereceu um elemento desestabilizador para a função.

Bolsonaro é a peça ‘rebelde’ que se desprende da engrenagem, cai na estrutura fixa do maquinário e faz explodir a caldeira central responsável pela produção das forjas econômicas, políticas, subculturais e sociais.

Luciano Huck é o último suspiro dessa caldeira decadente, prestes a virar escombros. Foi forjado com muito esmero e troca de favores, recebendo até a bênção de um dos funcionários mais leais da emissora do Jardim Botânico: Fernando Henrique Cardoso.

Sergio Moro também é tentativa de sobrevida.

Tudo seria mais fácil se não existisse Lula e o PT para restituírem a fórceps a realidade nacional que, nem Globo, nem imprensa e nem mídia alternativa são capazes de fornecer ao consumidor de informação.

Aponta no horizonte, portanto e em definitivo, um Brasil sem Globo. Resta saber se estamos prontos para deixamos de ser tutelados.

A expectativa é grande.

Gustavo Conde é mestre em lingüística pela Universidade Estadual de Campinas. Trabalha com teorias do humor e com a história da representação do riso. As áreas do conhecimento que caracterizam sua pesquisa são: análise do discurso, psicanálise e semiótica.

De Weimar à Davos: Desafios dos direitos sociais em tempos de neoliberalismo extremo

Patrocinado pelo Instituto Declatra, pelo Instituto Lavoro e pelo escritório Mauro Menezes e advogados, acontecerá o seminário “De Weimar à Davos: Desafios dos direitos sociais em tempos de neoliberalismo extremo”. O evento, vinculado ao máster de Direitos Humanos, Interculturalidade e Desenvolvimento da Universidad Pablo de Olavide, contará com a presença de Ricardo Mendonça, Mauro Menezes e José Eymard Loguercio (membros do No Leme) e acontecerá nos dias 21, 22 e 23 de janeiro na cidade de Sevilla, na Espanha.

A atividade tem como objetivo celebrar os 100 anos da Constituição de Weimar e oferece a oportunidade de discernir no contexto atual a luta pelos direitos sociais, enfrentando de maneira interdisciplinar o constitucionalismo social no marco das contradições e tensões da nossa época.

BOLSOMAMATA

Por Normando Rodrigues

Acabou a mamata! Agora só existe a Bolsomamata!

A Folha de São Paulo resumiu a nova ética que o governo Fascista impôs à administração pública:

– o responsável pela secretaria de comunicação da Presidência da República recebe dinheiro das empresas privadas contratadas por Bolsonaro.

O governo federal paga, com dinheiro público – aquele que você gosta de chamar de “seu, meu, nosso rico dinheirinho” – empresas para dar publicidade aos mandos e desmandos de Bolsonaro. E parte desse mesmo “dinheirinho” volta para o bolso de homem de confiança do Idiota-Mor, que supostamente “presta serviços” para as empresas em questão.

RACHUNCHO!

Diálogo imaginário:
“- Eu te contrato para o governo, e você me contrata e me paga como prestador de serviços, e estamos conversados!”
“- Não vai dar problema?”
“- Que problema? Parte do dinheiro vai pra quem manda! Entendeu?”

O mencionado secretário de Bolsonaro declara não haver “nenhum conflito de interesses”, em sua prática.

No entanto, a Lei 12.813/13, em seu Artigo 5°, Inciso VII, define “conflito de interesses no exercício de cargo ou emprego no âmbito do Poder Executivo federal”, como exatamente o ato de “prestar serviços, ainda que eventuais, a empresa cuja atividade seja controlada, fiscalizada ou regulada pelo ente ao qual o agente público está vinculado.”

VÍCIO DE ORIGEM

“Claro que não há conflito de intereçes (É com Z ou Ç? Chama o Weintraub, aí!) no governo Bolsonaro! Ele é honesto! Homem de honra e patriota! O que? Uma lei proíbe? Quem foi que propôs essa tal leizinha?”

A lei 12.813 é fruto do Projeto de Lei 7.528 de 2006, de iniciativa do próprio Poder Executivo, na época o governo Lula. E virou lei ordinária em maio de 2013, sob o governo Dilma.

“Não falei? É tudo armassão (É com Ç? Tem serteza?) do PT! Aprovaram essa lei pra ferrar com o governo honesto”

Tragicômico: boa parte do eleitorado pensará exatamente assim, talvez por conta do grande déficit educacional de nossa sociedade. Mas nada temam! Vêm aí os novos livros didáticos, com mais gravuras e sem “um montão de coisa escrita”.

FIDELIDADE

Bolsonaro et caterva já foram flagrados com gastos injustificáveis no cartão de crédito corporativo, e nada aconteceu. Ainda que fosse pego com pilhas de dinheiro em espécie, ou que se descobrisse ser ele mandante do assassinato de Marielle, também nada aconteceria. Seu eleitorado continuaria fiel.

Fidelidade que não deriva da verdade, ou da moral, e sim do caráter. Ou de sua total ausência.

Sintagma – Wilson Ramos Filho (Xixo)

Pensei na foto da garotinha, emburrada, recusando-se a apertar a mão do Gen. Figueiredo e, como uma coisa puxa outra, naquela com uma porção de milicos fazendo a saudação nazista e um sujeito lá no meio, sem elevar o braço. Sempre desconfiei das reais intenções da enfezadinha e do caboclo inerte. Sei lá, ele podia ter um problema no braço.

As fotos, como quase todas as construções humanas, permitem distintas interpretações, complementam-se, integrando-as hermeneuticamente, pelo sujeito cognoscente. O sentido do registro é atribuído pelo intérprete do objeto contemplado. Assim, a foto, como qualquer obra humana, transcende ao que pretendia o fotógrafo ou à vontade de quem foi fotografado. Há, sempre, uma autonomia relativa entre a expressão material e a realidade em que ela se insere, entre a intenção do fotógrafo e o que foi revelado. Essa epistemologia se presta a qualquer campo da cultura. O sentido da obra não existe de modo atemporal, nem se atrela absolutamente ao que pretendia o artista. Seu sentido se completa na mente do observador, podendo cambiar segundo contextos e conjunturas historicamente determinadas.

Há obras que são concebidas para produzirem um resultado, de acordo com o que pretendia o artista, e outras que adquirem novos sentidos com o passar do tempo. Também há as que se resumem a expressar o que nelas está materializado, algumas vezes como inovação, outras como invenção ou como inversão do ordinariamente estabelecido, sem uma preocupação maior com a leitura que delas se fará. A fotografia constitui-se em plataforma semântica que se presta bastante a estas distintas possibilidades interpretativas, assim como o cinema, fotos em movimento.

Por associação de ideias recordei de um jornal televisivo em que, simulando improvisação, a repórter faz a pergunta a um jovem que sapeca o antológico “primeiramente Fora Temer” antes de responder ao vivo a questão que lhe foi posta. Entre o que pretendiam a jornalista e a linha editorial da emissora de televisão e o resultado obtido houve grande distância, como consequência da resistência individual do entrevistado. O mesmo se repete com bastante frequência nos últimos tempos.

Recentemente uma jovem da favela da Maré, no Rio de Janeiro, de modo ousado, enganou a Globo. A reportagem era sobre o ensino do idioma coreano em uma escola pública, chamada Olga Benário Prestes, na comunidade onde militava a vereadora assassinada Marielle Franco. Solicitada a escrever algo na lousa (credo, que anacronismo) a moça garatujou ideogramas que, por transliteração fonética, seriam lidos como Fora Bolsonaro. Melhor explicar: como cada ideograma tem um som ela grafou fonemas que lidos em voz alta resultam em algo próximo ao Fora Bolsonaro. A isso se denomina transliteração. A menina foi esperta, passou a perna na Globo, e transmitiu o seu recado com um sintagma. A reportagem foi ao ar sem que a emissora se desse conta. Outro exemplo de resistência individual nesses tempos sombrios.

E como a interpretação só se completa com a interferência do observador, permito-me supor que a politizada estudante do idioma coreano naquela escola periférica, que enverga o nome da companheira do legendário líder comunista Luis Carlos Prestes, resistiu ao seu modo pensando em Marielle e em milhões de vítimas do bolsonarismo.

O resultado pretendido pela repórter, fazendo uma matéria tola, foi totalmente inesperado em razão da sardônica iniciativa da estudante. Assim como o moleque do Primeiramente Fora Temer, essa jovem entrou para a história com seu Fora Bolsonaro grafado em coreano.

E a menina que se negou a apertar a mão do milico ditador no final da década de setenta? Para mim foi birra, não queria transmitir uma mensagem. Como também sou, além de esquisito, birrento, reitero a premissa epistêmica: tanto faz o que pretendeu o fotógrafo ou a mimada garotinha. Ali naquela foto se expressou um senso comum em construção naquele momento histórico.

Iran – Wilson Ramos Filho (Xixo)

Vejo nas redes sociais muitas opiniões sobre o oriente médio e os países árabes. Não sou especialista, não correrei o risco de passar por ridículo. Limito-me a uma tomada de posição e a um relato pessoal.

“Nenhum outro país trata tão bem os ocidentais. Não conheço lugar mais hospitaleiro que o Iran. Ao contrário do que quer fazer crer a mídia ocidental, os xiitas são muito menos fundamentalistas que as demais alas da crença muçulmana ou que as diversas espécies de cristianismo”

Não há como tergiversar. Foi assassinato. O militar iraniano foi morto, covardemente, a mando do presidente dos EUA, violando as mais elementares regras do Direito Internacional. Um ato de guerra que terá consequências a longo prazo.

Passei 31 dias no Iran. Prefiro esta grafia em respeito aos iranianos. Entrei de carro, vindo da Armênia, passei por Tabriz, bordeei o mar Cáspio até a capital. De Teheran desci em direção ao golfo pérsico, passando por Qon, Esfahan, para alcançar Shiraz e a mítica Pasárgada, destruída por Alexandre. Viajava sem pressa, algumas vezes ficando em hotéis, a maioria em guest houses ou alugando quartos nas casas de moradores. Subi a Yazd onde fui colhido por uma das frequentes tempestades de areia. Rumando ao norte estive nas ruínas da cidade onde viveram os legendários Assassins (infiltravam agentes nas cortes dos inimigos, ganhavam-lhes a confiança para, ao final, matá-los com punhaladas, assumindo publicamente a responsabilidade pela execução, em nome de Alah). Fui a Mashhad, cidade sagrada, local de peregrinação para os xiitas, assim como Mecca o é para os demais islamitas. No final, cruzei novamente o país, de leste a oeste, passando pelo Curdistão, para cruzar a fronteira da Turquia. Foi uma experiência única, apenas um mês, que me marcou sobremaneira.

Difícil explicar. Deixo-lhes algumas impressões. Nenhum outro país trata tão bem os ocidentais. Não conheço lugar mais hospitaleiro que o Iran. Ao contrário do que quer fazer crer a mídia ocidental, os xiitas são muito menos fundamentalistas que as demais alas da crença muçulmana ou que as diversas espécies de cristianismo. Óbvio que foi uma pena o golpe aplicado por Khomeini na revolução que destituiu o Xá, em 1979. A revolução liderada pela esquerda e pelos sindicatos tentou obter o apoio dos clérigos e deu errado. A esquerda sempre comete essa erro. Ainda na escada do avião que o trazia do exílio o Aiatolá proclamou a República Islâmica, acabando com a monarquia. Os religiosos tomaram o poder e escantearam os que haviam se insurgido contra o regime anterior, capacho dos EUA e da Inglaterra. Lá, como em outros momentos da história, a crença em deus sufocou o rico processo revolucionário.

“É um dos países mais lindos que já visitei. Dizem que o Irak e o Afeganistan eram lindos também, antes que os EUA os destruíssem”

Desde então o Iran vem sendo ameaçado pelos EUA, seja instigando os vizinhos contra eles (Lembram da guerra Iran-Irak?), seja impondo severo bloqueio comercial e econômico.

Os iranianos não são árabes, são persas. Falam farci. Seus números e suas letras são distintos do idioma árabe. Para minha surpresa, não proíbem outras religiões ou leituras distintas do Corão, sempre viveram do comércio.

A natureza iraniana é diversa, com vários sub-sistemas de clima e vegetação, embora majoritariamente desértico do centro ao sudeste, até a fronteira com o Pakistan. É um dos países mais lindos que já visitei. Dizem que o Irak e o Afeganistan eram lindos também, antes que os EUA os destruíssem.

O militar iraniano foi assassinado quando estava em território iraquiano. Foi um ato de guerra. Espero que desta vez a diplomacia iraniana consiga, com apoio dos demais vizinhos, da Rússia e da China, evitar a destruição que os estadunidenses impuseram na Syria, no Irak, no Afeganistan e em tantos outros lugares.

Os xiitas são fundamentalistas? Não menos que os cristãos. Em qualquer lugar do mundo, quanto mais profunda e sincera for a fé em deus, maiores são as possibilidades assassinas por parte dos fieis. Era o que movia os Assassins, ainda antes da invasão dos khans vindos da Mongólia. É o que move ainda hoje milhões de potenciais assassinos que desumanizam quem acredita no deus errado e os que não foram bafejados pela sorte de acreditar no sobrenatural. É o que moveu as antigas e hoje mobiliza modernas cruzadas que, em nome do deus certo, destroem países, culturas e povos para assegurar seus interesses econômicos.

Vejo muitos debates nas redes sociais sobre as eventuais consequências econômicas de uma nova guerra na região. Para mim esta é uma discussão inoportuna e desimportante. Preocupa-me a morte de milhões de iranianos e a destruição do patrimônio cultural daquela gente hospitaleira e gentil. Sou esquisito.

Wilson Ramos Filho (Xixo), membro do Leme, professor, presidente do Instituto Defesa da Classe Trabalhadora.