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Esquisitices – Por Wilson Ramos Filho (Xixo)

Fidel Castro estava morto. A caminho dos funerais Boulos, Stédile, Dilma, Vagner Freitas e Lula passaram pelo Rio de Janeiro. Gisele Cittadino organizou um jantar simples para recepcioná-los.

Um conjunto de intelectuais havia redigido um manifesto em defesa da democracia denunciando o Golpe e alertando para seus desdobramentos.

Não consigo deixar de me sensibilizar ao pensar em Lula na cela da PF, no dia do seu aniversário, 74 anos, revisando os acontecimentos desses últimos três anos e suas convicções com a certeza de que não está sozinho”

A pedido do Lula, coube à minha feiosa Bárbara Proner Ramos, na época militante secundarista, a leitura do documento. Emocionado, Lula renovou suas crenças na institucionalidade democrática e na força da juventude. Todos nos emocionamos. Estávamos sensíveis. Eles iam a um velório. Resistiríamos. Francisco Proner Ramos registrou o momento.

Passados três anos ainda experimentamos o luto de um funeral que se demora e nos arrasta em direção a terríveis trevas. Depois do Golpe destruíram o Direito do Trabalho, comprometeram o futuro com limites constitucionais no orçamento de modo a manter os pobres “no seu devido lugar”, como mão-de-obra barata subordinada aos interesses do capital. O Judiciário montou uma farsa para prender o Lula e impedi-lo de voltar ao governo pela via democrática das eleições enquanto o país agonizava. Deu no que deu. Estão destruindo, vândalos, tanto quanto podem, o que havia de contrapartidas para que o capitalismo fosse tolerado.

As instituições feneceram, a democracia, falecida. O Direito morreu. Lula está preso, as instituições estão encarceradas, a democracia encontra-se sequestrada e o Direito, no Brasil, em adiantado estado de putrefação.

Apesar de tudo, apesar desta gente horrorosa que escolheu viver sob valores fundamentalistas e autoritários, apesar do estrago promovido pela Direita Concursada, apesar da vergonha que sentimos pelos desvarios dos malucos, dos hipócritas e dos canalhas, apesar dos pesares, continuamos sensíveis. E com esperança. Emocionamo-nos com o levante popular no Ecuador e no Chile e com as vitórias eleitorais na Bolívia, na Argentina e no Uruguai. Somos democratas irrecuperáveis.

Não consigo deixar de me sensibilizar ao pensar em Lula na cela da PF, no dia do seu aniversário, 74 anos, revisando os acontecimentos desses últimos três anos e suas convicções com a certeza de que não está sozinho. Sou esquisito. Impuseram-lhe o isolamento físico sem conseguir que ficasse em solidão. Colocaram-no na solitária. Inútil. Pessoas como Fidel, Gandhi, Mandela nunca ficam sozinhas. Estão sempre presentes. Gente como nós jamais permitirá que a truculência se imponha sobre a sensibilidade. Somos esquisitos.

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