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Kirk Douglas

Por Normando Rodrigues

O texto vai tarde. Mas Odisseu retorna a Ítaca.

O “filho do trapeiro” judeu bielorusso, que a América fez, e que foi fiel ao sonho acolhedor do “Novo Colosso” por toda a vida.

Dizem que Kirk Douglas era um canastrão. Um bom canastrão. Será? Qual Kirk Douglas eu vi?

O GALÃ AÇUCARADO E O “CANALHA”

Esse era o do início da carreira, alternando entre comédias românticas e papéis de canalhas que subiam na vida pisando em todos ao redor, manifestando um claro ressentimento de classe. Eram “papéis-denúncia”, de empresário, boxer, repórter, diretor de cinema, escolhidos a dedo para a personalidade do ator, e que nem sempre encontravam redenção no roteiro.

Talvez o mais significativo deles seja o jornalista inescrupuloso de “Ace in the Hole”, sob Billy Wilder, em 1951. Obrigatório.

O comandante Eddington de “In Harm’s Way” (1965; um Otto Preminger ruim) é um canalha tardio.

O HERÓI

A fase do estrelato. Papéis “retos” e heróicos, seja de madeireiro, anti-madeireiro, protetor de indígenas, policial, o comando norueguês que impede a bomba nazista… O cowboy de rancho, do lado errado da disputa em “A Man Whitout a Star”, de King Vidor, em 1955, é um raro protagonista que “toma consciência” ao longo da trama, em não menos raro western político.

O DESAJUSTADO

O sobrevivente do holocausto que não se adequa aos kibbutzin, o piloto de corridas, o cowboy que se apaixona pela filha do chefe sioux, o Van Gogh sob a batuta de Vincent Minelli (Oscar de coadjuvante para o Gauguin de Anthony Quinn), o Doc Holliday do pausterizado “O.K. Corral”, de 1957, sob John Sturges…

O FANFARRÃO!

Esse, mais do que qualquer outro aspecto, era ele mesmo. Mas sempre afirmando que a vida tem LADO.

Quando entre 1959 e 1960 o astro da série de TV em western, “The Rebel”, Nick Adams, foi fotografado vestido de mulher, numa festa gay, a imprensa de espetáculos crucificou o rapaz, e a série foi cancelada. Douglas deu uma festa em sua casa, convidando os donos da emissora, a ABC, e se apresentou de vestido, peruca, maquiado e de brincos, ao lado da esposa, rindo e desmunhecando, posando para toda a imprensa. E no auge da noite perguntou no microfone se a ABC ia também cancelar a exibição de todos os seus filmes. Fanfarrão… do lado certo da história.

O “Odisseu” de 1954 (Ulysses, de Mario Camerini), é outro fanfarrão com lado. Nem tão estratego como Homero descreve o protegido de Atena, mas convincente. A cena em que o mendigo arma e retesa o arco, apesar de um erro de continuidade é até hoje sensacional. E Ana Mangano de Circe, convenhamos… Penélope que me perdoe!

No mesmo ano, o “Ned Land” de “20 mil léguas”, de Richard Fleischer, é o exemplo típico de fanfarrão. Contracenou convincentemente com uma foca!

O “Einar” de “Vikings” (1958, ainda de Richard Fleischer) é outro fanfarrão. Douglas viu os extras noruegueses, de um clube histórico que havia recriado os drakkars utilizados no filme, fazerem a brincadeira de “andar pelos remos”, e os imitou. Caiu umas duas vezes, batendo com os peitos num remo numa delas, mas aprendeu. Nadou pra lá e pra cá no fiorde gelado, entre o bote com a câmera e o drakkar, sempre rindo e perguntando se “dessa vez tinha ficado bom”. O filme é ruim. Mas a cena ficou ótima!

Tardiamente o fanfarrão aparece em filmes feitos sob medida. “Tough Guys”, de 1985, é meio um balanço da relação com o amigo Lancaster, e lança os “Red Hot Chili Peppers”. “The Villain” (Cactus Jack), de 1979, com Arnold Schwarzenegger, é uma versão western do ótimo desenho “Bom-bom e Mau-mau”.

O GRANDE KIRK DOUGLAS!

Até aí poderia ser um canastra de sucesso, como muitos. Mas é preciso listar o EXCEPCIONAL. E essa lista começa sob Kubrick. “Paths of Glory”, de 1957, nos apresenta o advogado coronel Dax, que estabelece identidade de classe com a ralé sob seu comando, e rompe com a burguesia do generalato. No fim, desencantado, reencontra a humanidade onde havia medo de mais um crime bárbaro, surpresa revelada só no olhar. Douglas coproduziu.

Também sob Kubrick, em 1960 vem “Spartacus”, de novo por Douglas coproduzido. Sua intervenção pessoal tirou Dalton Trumbo da vergonha de usar um testa de ferro, jogou a pá de cal no macarthismo em Hollywood, e nos deu A CENA: quando muito próximo do fim um afetadíssimo Laurence Olivier confronta o escravo e grita “Eu sou Marco Licínio Crasso!” O olhar diz tudo. Redime cada humilde que já ouviu o asqueroso “Sabe com quem tá falando?” Interpretação absurdamente excelente!

Pouca gente sabe, mas a escolha por Douglas, do livro de Howard Fast, tem outros significados. O autor começou a escrever o romance durante a prisão de 3 meses de cana, no macarthismo, por recusar dar os nomes de voluntários e patrocinadores de um hospital para refugiados da Guerra Civil Espanhola. E a história havia virado um símbolo da cultura soviética, com o balé de Khachaturian, estreado em 1956.

Mas, ainda que não houvessem “Paths of Glory” e “Spartacus”, Douglas estaria aqui por um outro desempenho excepcional, e cheio de conteudo político. Sob John Frankenheimer, em 1964, vem “Seven Days in May”, com Douglas como o coronel Casey, que desmonta um golpe de estado na grande democracia do Norte, no último momento. A cena “Judas”, entre ele e o amigo Lancaster, é excepcional. De novo, Douglas coproduziu.

O KIRK DOUGLAS QUE GUARDO FOI O DESSES 3 FILMES, POR ELE DETERMINADOS.

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