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Obsoleto – Wilson Ramos Filho (Xixo)

Desenvolvida como estratégia industrial a partir dos anos cinquenta, embora inventada muito antes, a “obsolescência programada” consiste em – propositadamente- dotar os produtos de uma “vida útil”, de um tempo máximo de funcionamento ao término do qual os consumidores são levados a adquirir novos equipamentos em substituição aos anteriores, já obsoletos.

As máquinas e equipamentos, desde os industriais até os prosaicos utensílios domésticos, apresentam defeitos porque foram programados para estragar ou para deixarem de funcionar adequadamente depois de certo tempo.

Como o universo de consumidores é limitado sob o capitalismo, por pressupor uma maioria despossuída que serve apenas como depreciada força de trabalho com baixa capacidade de consumo, ocorre o que os economistas denominam de “saturação do mercado”. Depois que todas as casas têm geladeiras, por exemplo, se estas não fossem planejadas para apresentar defeito depois de certo tempo, o futuro do negócio dos fabricantes de geladeiras poderia ficar comprometido. Por esta razão é que os equipamentos não são feitos para “durar a vida toda”, todos têm um, digamos, prazo de validade, um período em que funcionam adequadamente ao término do qual devem ser substituídos. Essa decisão política empresarial está na raiz do problema da produção milhares de toneladas de lixo eletrônico a cada ano, mas esta é outra questão.

Esse primeiro ano de governo carregava uma obsolescência programada: muitos dos atuais ministros devem ser substituídos por outros menos imbecis que os atuais, com perfis psicológicos mais próximos do que se convencionou chamar de “normalidade”.

O primeiro psicopata a ser substituído em 2020 parece ser o subletrado que ocupa o MEC. Seu secretário de ensino superior demitiu-se ontem. A lambança com o SISU aparenta ter selado o futuro do ministro. “Abe is out”. Lembram da ridícula cena do ministro com óculos escuros dizendo esta frase ao tempo em que deixava cair o microfone ao término de uma entrevista coletiva? Cumpriu o papel que lhe foi designado. Depois do fiasco do olavista anterior na pasta da educação, o tal Velez, aquele colombiano sub-normal que só protagonizou lambanças, primeiro bolsonarista no comando do MEC veio o atual, não menos incompetente. O MEC foi sendo paulatinamente transformado, a educação está sendo destruída. Não, não se trata de acidente de percurso ou de efeito perverso decorrente de escolhas desastrosas de quem seriam os ministros. Fizeram o que deles se esperava: desarrumaram o sistema educacional, desmoralizaram o ENEM, estigmatizaram a inteligência e a intelectualidade identificando a racionalidade e a ciência como “coisas de esquerdistas”. Os próximos objetivos já estão próximos de concretização: escolas civis-militares, ensino confessional ligado às milícias evangélicas, concentração do ensino privado em grandes conglomerados empresariais.

Os perdedores que foram marginalizados por não terem estudado nas duas primeiras décadas deste século chegaram ao governo e se vingaram de quem fez faculdade, dos que seguiram estudando em mestrados e doutorados. O ensino, adequado à maneira bolsonara de existir em sociedade, doravante servirá apenas para formação de mão-de-obra para atender às demandas do capitalismo dependente brasileiro, com livros sem muita coisa escrita.

O novo ministro da educação provavelmente terá um perfil mais técnico, alguém comprometido com o projeto bolsonarista sem pretensões de “lacrar” com bizarrices a cada intervalo de tempo.
A primeira etapa do bolsonarismo no MEC, por obsolescência programada, aproxima-se do fim, destruída a herança petista. A próxima, todavia, não será melhor. Quem festejou a queda do Velez talvez tenha percebido que Weintraub foi muito pior para a educação que seu antecessor.

As políticas públicas na educação, sob o governo desse jaguara, foram feitas para não funcionar. E ao não funcionarem, funcionam, cumprem uma funcionalidade no projeto das elites econômicas e de seus beneficiários: direita concursada, igrejas cristãs, operadores do mercado, estamento militar, e a velha classe média.

Os sonhos da juventude progressista dos primeiros anos deste século foram tornados obsoletos. Contudo, esta obsolescência não foi programada; decorreu do Golpe de 2016 e da consequente eleição desta gente ruim que se adonou, imoderadamente, do aparelho de Estado nesta parcela da terra-plana denominada Brasil. Weintraub, como Velez, irá para o lixo. E depois dele, um a um, outros ministros se tornarão obsoletos e serão descartados. O capitalismo é assim. Já as utopias seguirão por aí, como espectro a apavorar os medíocres, como razão de viver de quem não consegue existir sem sonhar.

Wilson Ramos Filho (Xixo), doutor em direito, preside o Instituto Defesa da Classe Trabalhadora.

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