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Relações Obscenas VIII: Lula, o animal político — Juca Kfouri

A simpatia é evidente, a informalidade tão flagrante que o complicou, a persistência é tamanha que muitas vezes parece ingenuidade.

Sobretudo, Lula respira e transpira política da hora em que acorda até a de dormir.

Nem estive tantas vezes com ele, mas também não precisava para perceber.

Na penúltima vez, quando o visitei como avô solidário pela morte do neto Arthur, testemunhei, surpreso, até que ponto o animal político fala mais alto que o homem sofrido diante de dor tão absurda.

A última, por ocasião da entrevista à TVT, com mais de 1 milhão e 300 mil visualizações, não é preciso mencionar, porque duas horas de política na veia, como era o objetivo de sua primeira aparição depois da Vaza-Jato.

Mas a penúltima…

Antes de encontrá-lo fui alertado por um de seus fiéis advogados: “Faça perguntas, porque se não fizer ele sairá falando durante todo o tempo da visita”.

Ao entrar no cubículo que lhe serve de cela, avisei: “Lula, aqui está um avô solidário”.

Ele se aproximou, me deu um abraço, e não disse nada.

Quando nos sentamos, perguntei como ele estava, certo de que falaríamos de Arthur.

Sua resposta foi desconcertante: “A solidão é dura, mas estou acostumado. Desde que saímos de Brasília me acostumei a ficar com a Marisa em casa. Evitava ir a restaurantes, festas, para não criar problemas.”

Interrompi: “Sim, mas estar em casa com ela é bem diferente de estar aqui.”

Ele não deu pelota.

“Passo o tempo todo pensando no Brasil, lendo sobre o Brasil, planejando o que fazer pelo Brasil quando sair daqui, se é que um dia vou sair”.

E desandou a falar pelas duas horas seguintes.

Do Brasil!

“Quando eu sair daqui nunca mais falarei em distribuição de renda. Falarei de distribuição de riqueza”, prometeu.

E seguiu: “Sabe, tenho lido muito e visto muita TV. Aprendi com os pastores eletrônicos o poder da repetição. Temos de repetir o óbvio, até fazer todos entenderem. Não adianta ir às reuniões do partido de tempos em tempos com uma ideia genial. É preciso bater nas mesmas teclas todos os dias”, enfatizou.

“Porque tem gente que precisa abrir a cabeça, que precisa ouvir, deixar de achar que sabe tudo.”

“Quem, por exemplo?”, perguntei.

“Ah, tanta gente! O José Serra, o Moro, o Dallagnol”, respondeu, piscou o olho e acrescentou: “A Dilma e o Aloizio Mercadante.”

Lula estava impressionado com um livro, “de umas 1000 páginas” de um autor cujo nome não conseguiu lembrar sobre petróleo: “Lá estão todos os conflitos que os Estados Unidos armaram pelo mundo afora por causa do petróleo. No mundo árabe e aqui na América do Sul, na Venezuela, no Brasil depois da descoberta do pré-sal”.

“Mas dá para defender o Maduro?”, eu quis saber.

“Não, não dá, como não dá para defender qualquer intervenção na Venezuela, qualquer solução que não seja dos próprios venezuelanos. Veja, eu tinha uma relação quase de pai com o Chávez, e sempre dizia a ele: ‘Aumente o preço da gasolina, deixe de financiar os carrões da elite e distribua o que arrecadar de impostos para dar comida aos pobres’. Mas ali é difícil, com clima de guerra civil.”

Conheci Lula em 1979, em meio às greves dos metalúrgicos do ABC, e o vi atuar no estádio de Vila Euclides.

Lembro que na véspera da missa de 1º de Maio, com o sindicato dos metalúrgicos sob intervenção, dizia-se que ele seria preso se aparecesse na Igreja Matriz de São Bernardo do Campo.

Em tensa reunião na sua casa, discutia-se se ele deveria ir à missa ou se esconder, quando ouviu-se a voz serena e firme da socióloga, professora, fundadora do PT, a resistente Zilah Abramo, esposa do jornalista Perseu Abramo: “Lula, o trem da História só passa uma vez na frente da gente. Não o perca”.

Lula foi.

Cerca de 50 mil pessoas dentro e fora da igreja estavam em torno do ato religioso e de lá foram para o estádio para o ato que reuniu calculados 130 mil trabalhadores.

Lula fez discurso histórico sobre o significado daquele dia.

Em 19 de abril de 1980 foi preso e passou 31 dias no Deops, o que serviu apenas para estimular outra greve em andamento.

Ao de lá sair já era a maior liderança trabalhista do país.

Era só o começo da trajetória do animal político, negociador por natureza, conciliador sempre de olho na correlação de forças, capaz de agradar a gregos e troianos como demonstrou em oito anos de governo com 87% de aprovação.

É fácil imaginar como as elites do país se arrependeram de tê-lo soltado e não é difícil supor, também, que não fosse a informalidade de Lula, ao tratar empresários e trabalhadores com a mesma sem-cerimônia, talvez não estivesse novamente na prisão.

Daqueles dias de 1979/80, guardo na memória o ar de agradecimento dos operários sempre que encontravam alguém que claramente não era do meio deles, mas lá estavam solidários.

O mesmo ar revi no dia 7 de abril de 2018, no entorno do prédio do sindicato de São Bernardo, onde Lula permaneceu até se entregar para cumprir pena em Curitiba.

Estávamos todos 38 anos mais velhos, mas a serenidade de Lula era a mesma, consolando os que foram se despedir, sempre com uma palavra de esperança e de resistência pacífica.

Vivia-se uma cena parecida com a de quase quatro décadas antes, mas as pessoas nas ruas nos olhavam além de agradecidas, ansiosas, como se a nossa presença pudesse evitar aquela violência.

O animal político, como em 1978/79/80, impunha nova derrota a seus algozes, ao estabelecer as regras de como deixaria a liberdade para continuar na História, sem algemas, sem humilhação, líder nas pesquisas eleitorais para o pleito que lhe impediriam de participar.

Este é o Lula capaz de dizer que o maior mérito da Revolução Russa foi o de ter forçado potências do capitalismo europeu a cederem os anéis para não perder os dedos, com o estado de bem-estar social, embora ele mesmo tenha evitado as rupturas.

O Lula que hoje se preocupa que semelhante pressão já não exista mais, razão para tanto retrocesso.

O Lula que segue como ator principal da cena política nacional por oposição ao retrocesso civilizatório vivido pelo Brasil.

A elite golpista morre de medo dele.

Ao nos despedirmos nesse penúltimo encontro — no último, pelo protocolo da Polícia Federal que cerca suas entrevistas, não houve espaço para intimidade — ele ainda sugeriu: “Entreviste o Gabrielli (Sergio Gabrielli, ex-presidente da Petrobras) para falar sobre petróleo”.

Lula é adepto da frase de Dom Paulo Evaristo Arns, corinthiano como ele: “Não há derrotas definitivas para o povo”.

E faz política 24 horas por dia, todos os dias, queiram ou não.

Juca Kfouri
Jornalista, apresentador e escritor brasileiro.

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