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“Lula Livre!”, um grito que nasceu há quatro décadas – Fernando Morais

Ao final da leitura deste “Relações Obscenas”, um eletrizante instant book sobre o Brasil de 2019, minha memória deu um salto para quarenta anos atrás. A primeira vez que vi uma multidão gritando “Lula Livre!” foi em maio de 1980, no cemitério da Vila Paulicéia, em São Bernardo do Campo. Ali estava sendo sepultado o corpo da camponesa pernambucana Eurídice Ferreira de Melo, conhecida como dona Lindu, vitimada aos 65 anos por um câncer no útero. Os gritos que quebravam o silêncio do campo santo exigiam a libertação de um dos filhos de dona Lindu, o metalúrgico e líder sindical Luís Inácio da Silva, o Lula. Por decisão do “Cacique”, nome pelo qual os policiais tratavam o chefe da Casa Civil da ditadura, o general Golbery do Couto e Silva, Lula tinha sido autorizado a deixar a cadeia, sob forte escolta, para assistir ao funeral da mãe — certamente o ser humano que mais influenciou a formação de seu caráter e de sua personalidade. Na data da morte de dona Lindu, Lula já completara três semanas de prisão.

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Desde o dia 1º de abril Lula vinha liderando uma greve salarial que paralisava os 140 mil metalúrgicos da região do ABC, grudada à capital paulista, à época o maior e mais poderoso centro industrial da América Latina. Tinham sido infrutíferas as sucessivas reuniões de negociações de Lula e seus companheiros de sindicato com os patrões, entre os quais se encontravam alguns pesos-pesados como a General Motors, Ford, Volkswagen, Scania e uma miríade de pequenas, médias e grandes indústrias nacionais, fornecedoras de autopeças, e que viviam na órbita das montadoras multinacionais. Fazia 42 dias que todas elas estavam paradas.

Tendo à sua mercê o governo do general João Figueiredo e a polícia do biônico governador paulista, Paulo Maluf, os patrões montaram uma escalada de ações para acabar com a greve. O primeiro passo foi o de costume em circunstâncias semelhantes: repressão aos piquetes que madrugavam nas portas das fábricas mantendo viva a chama da greve. Comandados pelo truculento coronel Dauterdimas Rigonatto, centenas de soldados do Batalhão de Choque e do Regimento de Polícia Montada da PM paulista passavam as noites no ABC, dissolvendo a golpes de cassetete e bombas de gás os piquetes e pontos de distribuição de panfletos nas portas das fábricas. Mas a greve prosseguia.

Ao perceberem que a violência física não seria suficiente para levar a peãozada de volta às máquinas, os patrões anunciaram que o pagamento dos salários estava suspenso e só voltaria a ser feito quando o movimento chegasse ao fim. Um fundo de apoio aos grevistas, porém, surpreendeu a todos: em poucos dias filas de caminhões descarregavam sacos de arroz, feijão, farinha, caixas e caixas de leite em pó e enlatados nos postos de recepção, conseguindo abastecer as milhares de famílias de grevistas. A solidariedade nacional enterrou a tática patronal de matar o movimento pela fome. Ao contrário do que se pretendia, a greve se espalhou para fábricas de Santos, Sertãozinho, Taubaté, Pindamonhangaba, Guaratinguetá, Piracicaba, São José dos Campos, Sorocaba, Campinas, Santa Bárbara d’Oeste, Araraquara, Américo Brasiliense, Ribeirão Preto, Ourinhos, Mococa, Jundiaí, Lorena e Cruzeiro. Pelas contas do governo, quase meio milhão de trabalhadores paulistas estavam de braços cruzados.

Os patrões decidiram então disparar o que imaginavam ser o tiro de misericórdia no movimento paredista: propuseram ao governo intervir no sindicato e prender todos os diretores. Pedido feito, pedido atendido. Na madrugada de 17 de abril, o banqueiro Murilo Macedo, ministro do Trabalho — sim, o ministro do Trabalho era um banqueiro — determinou a intervenção nos sindicatos de São Bernardo e Santo André e a destituição e prisão de todos os diretores, a começar, claro, pela de Lula, o que ocorreria dois dias depois. No arrastão seriam presos também Arnaldo Gonçalves, presidente do sindicato dos metalúrgicos de Santos, e os juristas José Carlos Dias e Dalmo Dallari, defensores do movimento. Mesmo com todas as lideranças encarceradas, a greve continuou. A ditadura militar, que começara a desmerengar cinco anos antes, após os assassinatos por enforcamento do jornalista Vladimir Herzog e do operário Manoel Fiel Filho nas dependências do DOI-Codi paulista, parecia estar com os dias contados.

Quem se encontrava no cemitério da Vila Paulicéia, no dia do enterro de dona Lindu, jamais poderia imaginar, com o fim da ditadura, que quatro décadas depois os brasileiros voltariam a gritar “Lula Livre!”. Desta vez não apenas no ABC paulista, mas em todos os cantos do país, das grandes metrópoles aos mais remotos rincões do chamado Brasil profundo.

É nesse sentido que o livro “Relações Obscenas” deixa de ser apenas um registro da desmoralização pública da Operação Lava Jato pelos relatos vazados pelo site The Intercept e pela coragem de seu editor, o jornalista Glenn Greenwald. No caleidoscópio de depoimentos aqui contidos é possível ver, com cristalina clareza, a monumental conspiração envolvendo a mídia manipuladora, setores do Poder Judiciário, da Polícia Federal e do Ministério Público com um único objetivo: colocar na cadeira e esvurmar da vida pública um metalúrgico sem diploma que foi duas vezes presidente da República e que tirou o Brasil do mapa da fome.

Este é um livro para ser lido e guardado para que nossos netos conheçam, em detalhes, o pesadelo em que o Brasil foi mergulhado pelas elites que há quinhentos anos decidem nosso destino. Pesadelo que só chegará ao fim quando todos nós gritarmos, numa só voz, “Lula Livre!”. Mesmo os democratas que divergem dele sabem que o Brasil só voltará a ser um país livre quando Lula estiver em liberdade.

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