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Psicologia de massas e a nova direita no Brasil – Tales Ab´Sáber

Tales Ab’Saber retrata a “Psicologia de massas e a nova direita no Brasil” no texto de hoje. O autor é psicanalista e professor de Filosofia da Psicanálise na Unifesp. Este artigo faz parte do livro “Relações Obscenas”, dos Institutos Declatra e Joaquín Herrera Flores, que será lançado em setembro pela editora Tirant Lo Blanch.

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Não há nenhuma dúvida que o processo do novo golpismo dos anos 2010 brasileiro contou com uma complexa tecnologia de produção e agenciamento psíquico, fazendo da psicopolítica e da guerra psicológica calculada

A atual lassidão e adesão automática de muitos a atos ilegais que ultrapassam as determinações constitucionais e tendem a dissolver os parâmetros do espaço público e político no Brasil – uma política da dissolução gradual das formas efetivas da democracia – têm origem, entre outras coisas, na degradação ética, conceitual e política que moveu a subjetivação golpista brasileira dos últimos quatro anos. É relevante retomarmos a natureza da política da psicologia de massas, que participou como sujeito e como objeto da ascensão da extrema direita ao poder no Brasil, e que é fundo subjetivo, entre irresponsável, cínico e excitado, dos movimentos ilegais e anticonstitucionais franqueados ao governo Bolsonaro.

Não há nenhuma dúvida que o processo do novo golpismo dos anos 2010 brasileiro contou com uma complexa tecnologia de produção e agenciamento psíquico, fazendo da psicopolítica e da guerra psicológica calculada, bem confundida com informação e notícia, um de seus principais campos de ação. No mesmo movimento em que a nova direita, baseada em arcaísmos e distorções históricas acintosas e chocantes e ataques aos direitos humanos universais,  ocupou o espaço da cultura com suas máquinas e robôs na internet para convidar e forçar a identificação de massas com posições apaixonadas e violentas, reduzindo o espaço simbólico da política ao ato psíquico e ao engajamento corpóreo do ódio, a esquerda e seu o campo social progressista se viram estrategicamente, e psíquicamente, paralisados, pelo deslocamento do debate político para o espaço da guerra simbólica aberta, que a esquerda democrática não tinha “autorização” vinda do todo, nem legitimidade, e nem desejo, de operar. E ainda, se viu paralisada também por complexos sentidos, culposos e melancólicos, de não saber pensar e agir no campo aberto e centralizado pela judicialização da política contra ela, que criou curto circuito ético mal elaborado politicamente, com base no problema real universal do sistema brasileiro da política corrupta da confusão entre ações de Estado e interesses privados no Brasil.

Se a nova direita golpista engajou todos os meios disponíveis de convocação alucinatória e apaixonada de grupos em expansão, até alcançar massas e a ilusão de uma maioria cultural que sustentaram como legítima a ação dos políticos muito duvidosos –  sabidamente corruptos – da direita institucional, em um jogo histórico perverso para o afastamento de Dilma Rousseff, no mesmo movimento da conquista da cultura para a fúria discursiva falsa que centralizou a vida política do país no tema único da corrupção, a esquerda, por seu lado, perdeu a capacidade significante da dar destino político ao problema, pautado como propaganda em toda cultura, em toda meio de comunicação e em todas as classes sociais brasileiras. Perdendo a capacidade de lidar com a guinada política discursiva e emocional da radicalização da direita no Brasil, e sua fúria manipulatória baseada na liberalização e ação da mentira pública por meio de grupos e redes sociais na internet ao redor do sentido da experiência universal da corrupção no país, a esquerda esvaziou, no mesmo movimento que a direita ocupou todo o espaço público, a própria capacidade de pensar a política como ela passou a ser dada e se configurar a partir de 2015. Ali onde a esquerda institucional, paralisada por um processo judicial estratégico, se recusou a lidar politicamente com o tema e o problema social da corrupção – tendo que ser confrontada com a culpa e responsabilidade de centenas de milhões de dólares que retornavam da Suíça, que reforçavam efetivamente o único ponto de verdade que a direita brasileira operava – a direita popular e engajada, militante e apaixonada, movida pelos inputs políticos constantes da Operação Lava Jato, ocupou todo o espaço simbólico da nova luta política, e determinou, falando sozinha em todos os continentes de difusão da comunicação pública, a fixação perversa da esquerda no lugar de mal absoluto, uma lógica dos sentidos das coisas humanas de tipo esquizo-paranoide, como dizem os psicanalistas, infantil e primitiva. 

Podemos relembrar a origem da ação popular de ocupação perversa, porque parcial e delirante, da nova direita do espaço da política das ruas e sua convocação de guerra imaginária de absoluto vale-tudo contra a esquerda democrática, que desconheceu até muito tarde – até mesmo após a eleição de Jair Bolsonaro, movida pelos mesmos expedientes – o sentido daquelas novas práticas discursivas sociais. Em primeiro lugar, o circuito de milhões de pessoas em centenas de fóruns e chats na internet, ao quais investiguei no filme de 2016, Intervenção, amor não quer dizer grande coisa, que reconstruiu o sistema de linguagem, do delírio, das intensidades e do ódio, que movia o polo extremo da direita convulsionada brasileira. O filme acompanhou a ação simbólica específica da direita que demandava intervenção militar para debelar a crise política que a própria direita nacional criara, autorizada desde sempre pelo todo dos jogos de classe, em sua luta total para derrubar o governo petista. Uma pesquisa Datafolha feita em meio a uma das grandes manifestações públicas de domingo à tarde, em 2015, na Avenida Paulista, em São Paulo, pela queda de Dilma Rousseff, avaliou que cerca de 15% dos manifestantes demandavam na época uma intervenção militar no Brasil. Muito ativos na internet, este grupo, do qual fazia parte o guru agressivo e ideólogo da extrema direita Olavo de Carvalho, alimentou todo o processo político de massas nas ruas com a ideia do vale-tudo simbólico absoluto, sem limite conceitual, legal, histórico ou de obscenidade projetada, para a derrubada do governo. Segundo o filme, o seu sistema de ideias falsas multiplicadas aos milhares na internet, já em 2015 e 2016, era o seguinte: 

Desde a existência de um encontro de partidos e políticos de esquerda latino americana acontecido em meados da década de 1990, chamado Foro de São Paulo, se estabeleceu um plano amplo para a tomado do poder pela esquerda em toda a América Latina, visando a criação de uma grande pátria unificada socialista, cujo nome primeiro era Unasul; Lula e o PT eram agentes avançados desse processo e estavam em contato com forças revolucionárias e movimentos de guerrilha latino americanos, como as Farc da Colombia, de modo a investir e ajudar no processo revolucionário mais amplo, e importá-lo para o Brasil; o vínculo com o intervencionismo chavista na Venezuela era real, orgânico e meta final do lulopetismo no Brasil; as mínimas políticas de reconhecimento e identitárias contemporâneas do governo visavam a criação de uma hegemonia política e cultural da esquerdas no país, com vistas a facilitar a revolução comunista que estava no horizonte próximo; as mínimas políticas de recebimento de imigrantes pelo Brasil, refugiados haitianos, palestinos, africanos e os médicos cubanos convidados pelo programa mais médicos do governo federal eram na verdade a real importação de um exército guerrilheiro internacional, que receberia armas enviadas pelas Farc e pela China pelas fronteiras desprotegidas do país para fazer a guerra revolucionária no Brasil; os acordos comerciais com a China e uma plataforma genérica de intenções para a construção de uma estrada de ferro ligando o Brasil ao Pacífico eram na verdade um acordo de submissão e entrega do Brasil à China, que, após a revolução comunista lulopetista, entregaria o país a milhões de chineses que chegariam através da estrada de ferro prevista, que ocupariam as nossas casas; armas estavam entrando no país e sendo estocadas em fazendas do interior, para alimentar o exército do MST e dos guerrilheiros estrangeiros trazidos ao país pelo governo; a presidente Dilma estava prestes a deflagrar a ofensiva revolucionária do governo; o roubo e a corrupção petista era de fato a produção de dinheiro necessário para a guerra revolucionária em curso; o exército brasileiro era a única alternativa real e eticamente solida para barrar a revolução comunista iminente, e já em curso, que corroeu as instituições, a cultura e a política brasileira visando a desestabilização para a constituição de um país socialista; a corrida contra a iminência do ataque comunista era urgente e o exército brasileiro, única salvaguarda moral e institucional disponível, interviria e não permitiria a destruição da nação pela revolução esquerdista; a intervenção militar era iminente, e todos deveriam se preparar para ajudá-la politicamente e sustentá-la nas ruas e nos espaços públicos necessários; a guerra de salvação nacional aconteceria a qualquer instante, e de fato ela já estava acontecendo…

Este campo de ideias falsas e manipulatórias, circulando aos milhões de views nos anos de 2015, 2016, 2017 e 2018, foi um dos importantes circuitos míticos que blindaram a crítica posterior à Jair Bolsonaro na eleição de 2018, já funcionando com grande antecipação como sua própria campanha. Tal circuito de práticas e violências simbólicas, mentiras públicas grotescas como ação política tornada legítima, foi criado e se expandiu na rede de comunicação por computadores desde 2014 e não foi absolutamente percebido pela esquerda institucional como problema político e social vital na sua luta legal ineficaz, referida a outra ordem de produção de política, para não ser destituída do poder conferido pelas eleições, e corroído fortemente no espaço público deste modo. 

No mesmo tempo em que tal violência sistemática subjetivante, paranoica e movida por ilegalidade – calúnias, difamações, mentiras históricas, ameaças, máquinas-robôs de internet e impulsionamentos de massa, pagos ilegalmente por empresas – também se configurou o modo oficial da classe média conservadora se engajar na ritualística da luta simbólica antipetista por meio do  seu teatro espetacular de democracia e sua liturgia de conversão em massas, ou imagem, para ser acompanhado em tempo real pela Globonews: das grandes manifestações de domingo à tarde, seu cinismo calculado para a imputação exclusiva ao PT da corrupção brasileira universal e seu ato autoritário de transformar a esfera pública em um campo feroz, sádico e feliz, de “bateção” de panelas, desconhecendo o direito do adversário à voz. Ainda em 2015, no auge da crise de deslegitimação do governo petista por esta fúria de psicologia regressiva de massas das classes médias brasileiras, estrategicamente produtora da imagem global de sua reprodução broadcasting, eu anotei a respeito daquele movimento:

“Assim se produziu o campo extremo, algo delirante, em que a luta democrática antipetista encontrava a velha tradição autoritária brasileira. E, por isso, agora que o país, em seu neotranse, se levanta contra os comunistas inexistentes, em uma ritualização do ódio e da ideologia, elegantes socialites peessedebistas e novos empresários teapartistas convivem bem, nas ruas, fechando os olhos para o que interessa, com bárbaros defensores de ditadura, homens que discursam armados em cima de trios elétricos clamando por intervenção militar urgente no Brasil e sonhando com o voto em Jair Bolsonaro. Não por acaso, em regime de farsa verdadeira, se vislumbrou nas passeatas de março o semblante das velhas marchas conservadoras de 1964.// Assim, todo o campo dos anticomunistas do nada, incluindo elegantes estadistas e cientistas sociais, prestou desserviço à qualificação do debate público brasileiro para a vida contemporânea, que ainda é seduzido e obrigado a pensar, por estes homens, regressivamente, com parâmetros vencidos de mundo, construídos em 1959. Este campo também é movido, em uma certa facção da elite que o anima, por uma verdadeira política identitária de classe, cujo lastro organizador de mundo é o ódio antipopular brasileiro.// Tal grosseria imatura e interessada seria simplesmente inaceitável por alguma vida política minimamente informada; se não se apoiasse em espetaculares erros reais do governo, que talvez, imaginariamente, entenda que a crítica às suas práticas graves seja apenas a ideia fixa delirante do anticomunismo do nada, e não um gradual e verdadeiro afastamento de suas bases políticas.// O anticomunismo atrasado brasileiro é regressão da política. Regressão aos argumentos de força e redução da diferença, e implica gozos baixos, do ódio que poderia se alçar ao sadismo, da simplificação da toda vida pública e social e do direito ao desprezo a respeito do destino da vida popular. É uma política do direito ao ódio fixado, frente à vítima escolhida.// Ele tende, como pode se observar facilmente no Brasil hoje, a reduzir a linguagem mediada dos problemas ao gesto de força, na panela, ou no corpo do inimigo.”

Este processo, de tendência genericamente neofascista, de movimentos de massa que degradaram toda linguagem e todo conceito em um ato de paixão desmesurada de ódio direto e de ganho instantâneo contra a esquerda democrática brasileira, descrito aqui ainda em 2015, foi exatamente o mesmo que, não por acaso, três anos depois, chegaria a eleger Jair Bolsonaro, uma real liderança desqualificada da falsificação histórica e do anticomunismo do nada brasileiro. Ele está no fundo da imensa condescendência simbólica, dos identificados e aderidos a este modo de produzir poder, com os desmandos e conluios ilegais gerais que definem o governo de extrema direita do Brasil. 

* Psicanalista, professor de Filosofia da Psicanálise na UNIFESP, autor de, entre outros, Lulismo, carisma pop e cultura anticrítica (Hedra, 2011), Dilma Rousseff e o ódio político (Hedra, 2015) e Michel Temer e o fascismo comum (Hedra, 2017).
2 Intervenção, amor não quer dizer grande coisa, 75 minutos, direção Tales Ab´Sáber, Rubens Rewald e Gustavo Aranda, 2016.
3 Dilma Rousseff e o ódio político, São Paulo: Hedra, 2015, pág. 43.

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