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Solidariedades

Por Wilson Ramos Filho (Xixo)

Em um texto antigo, Boaventura de Sousa Santos identificava tipos de globalização. Os principais eram o localismo globalizado e o globalismo localizado.

Como exemplo do primeiro o autor português mencionava aquilo que surgiu em algum lugar específico e hoje é encontrado em todo o mundo, desde o hambúrguer e as fajitas até a transformação do inglês em língua franca. O que era local se tornou global.

Por globalismo localizado entende as imposições globais, tidas como inevitáveis e que são implantadas em todos os países, com efeitos desastrosos. Trazendo essa noção para os dias atuais não é difícil identificar o globalismo localizado nas políticas neoliberais e de austeridade fiscal.

O professor de Coimbra, se não me equivoco, menciona outras duas espécies de globalização: o patrimônio comum da humanidade (oceanos, Antártida, estratosfera, entre outros) e o que ele chama de cosmopolitismo.

Na espécie de globalização que denomina cosmopolitismo, Boaventura inclui as pautas identitárias e seus movimentos transnacionais, as preocupações ambientais, entre outros exemplos, e chega a mencionar o combate às doenças virais como exemplos de um aspecto da globalização nem sempre lembrado. De fato, pela própria dimensão do impacto nas vidas das pessoas, certas preocupações e atitudes só fazem sentido se tiverem amplitude e abrangência globais. Essa espécie de globalização surge no cenário internacional para influenciar comunidades humanas, territorial e temporalmente localizadas. Os vírus não respeitam fronteiras e o combate às epidemias deve se constituir em globalismo cosmopolita sob pena de ser ineficaz. O combate ao capitalismo, também, adendo eu.

Feita essa referência, aproprio-me desses conceitos, com alta arbitrariedade, para propor aos escassos amigos
que resistiram à aridez dos parágrafos precedentes uma reflexão acerca do impacto da pandemia atual sobre a vida das pessoas no Brasil.

Esse COVID-19 parece ser uma mutação de outros vírus identificados em animais encontrados em uma província chinesa. Existem outras hipóteses, mas com certeza era algo existente em um território pequeno e que se espalhou pelo mundo. Um localismo globalizado pelo comércio transnacional.

Assim como o neoliberalismo, o fascismo social inerente ao modo de produção capitalista também se transnacionalizou, impondo uma maneira de existir em sociedade caracterizada pelo individualismo e por sua degeneração, a meritocracia. Esse globalismo foi localizado, com maior ou menor sucesso, em amplitude global. No Brasil essa maneira de existir foi adjetivada. Trata-se do bolsonarismo.

Quando o localismo globalizado (o vírus) se encontra com um ambiente dominado pelo globalismo localizado (neoliberalismo austericida destruidor de direitos; aqui sob a forma de bolsonarismo) os efeitos tendem a ser catastróficos.

O ritmo do capitalismo globalizado e as relações sociais em que se assenta não resistem a esta indigesta confluência. A crise econômica em que recentemente fomos envolvidos (a quebra nas bolsas de valores e a disputa em relação ao preço do petróleo são sintomas) não permite solução dentro dos marcos daquele capitalismo globalizado, segundo a minha percepção, e coloca em risco o patrimônio comum da humanidade e o próprio planeta.

As reações à pandemia têm sido desencontradas. Transitamos entre o alarmismo (morreremos como moscas) e o negacionismo (nada mais que uma gripe como tantas outras), abrindo espaço para o charlatanismo mítico em todas as religiões e para defesas nada equilibradas de um malthusianismo enrustido quando aludem à população carcerária ou à que vive nas ruas.

A maneira de existir em sociedade é posta em questão. Racionalmente se sabe que os serviços de saúde não estão preparados para a pandemia. O contágio é progressivo, em torno de 70% das pessoas contrairão o vírus. No Brasil esse número significa algo como 140 milhões de pessoas afetadas. Entre elas encontram-se cerca de 40 milhões de brasileiros mais vulneráveis a sérias complicações (idosos, imunodeficientes, pessoas cardíacas, hipertensas, diabéticas, etc), com risco de morte. Em torno de 20% destas pessoas precisarão de maiores cuidados médicos e o país não conta com os milhões de leitos em clínicas e hospitais que seriam necessários. Estima-se que 2 milhões de pacientes dependerão de vagas em UTIs para tentar sobreviver. Obviamente o Brasil não tem como atender a tamanho desafio sem investimentos públicos em valores elevados e sem contrariar os cânones e os dogmas do neoliberalismo bolsonarista (globalismo localizado com requintes de crueldade).

A alternativa racional implica a constatação que só nos resta buscar diminuir o ritmo da contaminação, diferindo no tempo a velocidade na demanda por leitos hospitalares.

As experiências nos países asiáticos indica que para diluir temporalmente a quantidade de infectados a solução passa pelo isolamento das pessoas em suas casas onde os riscos de contaminação podem ser melhor controlados. Diminuindo-se o ritmo da proliferação da pandemia talvez (enfatizo essa palavra) os hospitais brasileiros possam se adaptar para o aumento extraordinário de pacientes. Ocorre que essa medida impactaria duramente as relações de produção. Diminuir os ritmos do capitalismo soa herético aos neoliberais e aos defensores da maneira bolsonara de existir em sociedade. As quedas na Bolsa e no mercado de petróleo são vendidos à população como mera crise econômica e não como verdadeira crise no modo de produção e no modo de vida em sociedade associado ao capitalismo. Diminuindo-se o ritmo da atividade econômica por razões de saúde pública veríamos o acirramento do fascismo social e a ampliação do delírio coletivo que encontra acolhimento nas igrejas. Não há saída fácil. Considerando-se a competência dos beócios que ocupam o primeiro escalão do governo o quadro se agrava.

Dada a dimensão transnacional do problema seria desejável uma tentativa de solução também universal, com o desaquecimento e o decrescimento global da atividade econômica. Todavia, as sequelas para o capitalismo seriam imprevisíveis, ferindo poderosos interesses, razão pela qual não se vislumbram movimentos nesse sentido.

Inviável por enquanto esta opção, que se situaria no plano da defesa do patrimônio comum da humanidade e do cosmopolitismo proposto por Boaventura de Sousa Santos no referido artigo publicado no final do século XX, resta-nos as meia-solas de sempre.

Temos que, solidariamente, tentar diminuir o ritmo da contaminação. Para isso não existe mágica. Precisaremos nos conscientizar de que, por algumas semanas ou meses, devemos evitar os espaços públicos. Dentro de nossas casas será mais fácil evitar o contágio. As crianças não podem frequentar as escolas. Embora nelas os efeitos do vírus sejam estatisticamente irrelevantes, elas podem trazer da rua o vírus que matará pessoas com saúde vulnerável. As universidades, cedo ou tarde, se convencerão da inevitabilidade da suspensão das atividades presenciais. Quem puder trabalhar em casa deve se apressar em tomar essa decisão. Mas nada disso será suficiente sem uma conscientização mais ampla que importará em uma mudança de valores e, por mais que nos esforcemos, os efeitos ficarão aquém do necessário.

Obviamente todos os eventos públicos devem ser cancelados, por maiores que sejam os prejuízos para seus organizadores. As viagens devem ser evitadas, ainda que disso decorra perda de receita para as empresas de transporte, para a rede hoteleira e para bares e restaurantes.

Haverá resistência? Muitas. E crescentes. Todos temos boletos e compromissos financeiros a serem saldados. Milhões de pessoas não têm em casa quem se ocupe de seus filhos, milhões de brasileiros e brasileiras que se submetem a iníquas relações de trabalho (pejotização, uberização, informalidade precarizada) ou que foram transformados em empreendedores de si mesmos, dependem do trabalho fora de casa. Os exemplos seriam infinitos de situações em que não sair às ruas seria impossível. Muitas delas realmente são incontornáveis.

De fato, na maneira capitalista de existir em sociedade, não haveria alternativa. Morreremos como moscas ou nos refugiaremos no conforto negacionista da gravidade da situação.

Postas assim as coisas, ocorre-me, meiaoitista, a ousadia de pensar fora dos estritos limites do individualismo e da resignação bovina quanto à eternidade da exploração capitalista. Reconheço serem impactantes as imagens das gôndolas vazias nos supermercados da burguesia (estocam tudo, sem se preocupar se faltarão produtos para os demais) e a insistência gananciosa em manter eventos públicos apesar da exposição a riscos da distinta clientela. A maneira bolsonara de existir, como epidemia, contaminou os brasileiros.

Parece-me muito razoável, entretanto e apesar de tudo, reivindicar a prevalência do coletivo sobre o particular, da solidariedade em face do individualismo, da partilha ante a desigualdade. O mal-estar social criado pela quadrilha que se adonou dos governos e das políticas públicas talvez (olhe a palavrinha aí novamente) contribua para a consciência de que o capitalismo faz mal à saúde, de que os seres humanos precisam ter sua humanidade respeitada e para reinventar solidariedades. Vivíamos no Brasil uma era de obscurantismos. Agora, teremos que conviver com ampliadas incertezas em meio às trevas da negação das evidências científicas e racionais. Não será fácil. Nosso desafio será, em síntese, contrapor ao individualismo fascistóide os valores da igualdade e da solidariedade.

Wilson Ramos Filho (Xixo), doutor em direito, integra o Instituto Defesa da Classe Trabalhadora.

PARE
PODCAST #011 - DESCRIMINALIZAÇÃO DAS DROGAS